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Pedro Schmaus

 O mochileiro moderno não passa de um clichê

Não importa se o destino é uma cidade repleta de calçadas lisinhas. Mochileiro moderno que se preza carrega toda sua bagagem nas costas, mas nunca usa uma mala de rodinhas. Não lhes interessa ações de ordem prática. O importante é manter a aura de aventureiro. Na composição desse estranho personagem – além da mochila que passa quase um metro acima da cabeça – estão as misteriosas fotos de costas para a câmera. Nessas imagens peculiares eles encaram o horizonte em uma ridícula simulação de espontaneidade. Há também a barba por fazer, os dreadlocks e o jeitão maltrapilho. No entanto, talvez as maiores características do mochileiro moderno sejam sua orgulhosa sovinice e seu chato monopólio da chamada “viagem de verdade”. É fácil encontrá-los se gabando de ter dormido em um pulgueiro só para economizar um dólar por dia como se desconforto proposital pudesse ser sinônimo de aventura. De onde surgiu uma bobagem dessas?

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A cada entardecer os soldados que protegem a fronteira entre Índia e Paquistão realizam uma apresentação bem peculiar. Durante a arriação da bandeira de ambos os países, os militares fazem uma pequena disputa para mostrar todo o seu patriotismo. A Cerimônia Wagah é tão famosa que já se tornou uma atração turística acompanhada por milhares de turistas.

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 Os velhos não devem viajar

Um velho subia as escadas que dão acesso a Machu Picchu. Usava bengala e um tubo de oxigênio, além de contar com o amparo de uma enfermeira. Tinha o rosto desfigurado pelo esforço. Quem já fez sabe que esse é um caminho cansativo, mas é no topo que está a melhor vista da Cidade Sagrada. Senti-me mal pelo velho. Por que esperou tanto para viajar? Agora já não tem mais forças. A aventura de descobrir novos lugares tornou-se um tormento físico. Não há como aproveitar, o tempo dele simplesmente passou.

Meu guia notou meu olhar sobre a carcaça do velho. Era ele também quase um ancião. Baixa estatura, pele curtida e nariz de Inca. Perguntou o que eu achava, respondi apenas que tudo tem seu tempo. Ele então me ensinou algo poderoso:

Só fica velho quem desiste dos próprios anseios. Talvez seu corpo padeça, mas a juventude não está nele. A juventude está na coragem e determinação em realizar o que se quer. Esse homem que sobe as escadas não traz com ele sua velhice. Ele carrega em si uma confiança enorme, algo que independente de seu corpo. Quantos homens querem subir esses degraus e nunca virão? Quantos homens já desistiram antes de tentar? Quantos homens já estão velhos antes de estar? Esse homem que sobe as escadas não é nenhum deles, ele conseguiu.

Parei quando faltavam alguns lances de escada. Esperei o velho. Queria olhar seu rosto quando visse Machu Picchu. A Cidade Sagrada é a coisa mais linda que eu já vi nos meus anos de estrada, mas nada que se compare aos olhos marejados daquele homem.

Pensei então em quem está velho antes de estar. Senti-me mal novamente, mas dessa vez com razão.

Um abraço!

Pedro Schmaus

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Patrimônio

17 mar 2014 | por em colunas, Mundo Hiperativo às 15:54

 Patrimônio

Um jovem advogado foi indicado para inventariar os pertences de um senhor recém falecido. Segundo o relatório do seguro social, o idoso não tinha herdeiros ou parentes vivos. Suas posses eram muito simples. O apartamento alugado, um carro velho, móveis baratos e roupas puídas. “Como alguém passa toda a vida e termina só com isso?”, pensou o advogado. Anotou todos os dados e ia deixando a residência quando notou um porta-retratos sobre um criado mudo.

Na foto estava o velho morto. Ainda era jovem, sorridente, ao fundo um mar muito verde e uma praia repleta de coqueiros. À caneta escrito bem de leve no canto superior da imagem lia-se “sul da Tailândia”. Surpreso, o advogado abriu a gaveta do criado e encontrou um álbum repleto de fotografias. Lá estava o senhor, em diversos momentos da vida, em fotos em todo canto do mundo.

Em um tango na Argentina, na frente do Muro de Berlim, em um tuk tuk no Vietnã, sobre um camelo com as pirâmides ao fundo, tomando vinho em frente ao Coliseu, entre muitas outras. Na última página do álbum um mapa, quase todos os países do planeta marcados com um asterisco vermelho, indicando por onde o velho tinha passado. Escrito à mão no meio do Oceano Pacífico uma pequena poesia:

Não construí nada que me possam roubar.
Não há nada que eu possa perder.
Nada que eu possa tocar,
Nada que se possa vender.

Eu que decidi viajar,
Eu que escolhi conhecer,
Nada tenho a deixar
Porque aprendi a viver.

Abraço!

Pedro Schmaus

PS: pessoal, replicaram esse meu texto sem citar o autor, foi no Instagram de Max Porto, “o artista que queria ser um BBB e não um BBB querendo ser artista”. Algumas pessoas reclamaram, mas o dono do perfil disse que não tem como saber a verdadeira autoria, por isso ele não deu crédito. Vocês podem me ajudar?

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 As viagens à Disney e a construção do querer

Sempre sou atacado por dizer que a Disney – como destino turístico para adultos – é uma idiotice. Muitos me taxam de tirano e dogmático, afirmando que sou contra um princípio simples da liberdade: um indivíduo deve fazer aquilo que gosta.

Muito bem, notem a fragilidade dessa linha de raciocínio. Que tal um pedófilo que é feliz ao estuprar garotos de cinco anos? Impediremos esse homem de ser feliz? É claro que é um exemplo extremo, mas serve para ilustrar que a coisa não é tão simples como sugerem os filósofos dos comentários. Não se trata só de fazer o que gosta e pronto. O buraco é mais embaixo.

Começa pela própria construção do querer. Percebam que nossos gostos pessoais são o resultado de um processo bastante complexo e muitas vezes à parte de nós mesmos. Um exemplo básico seria a escolha da religião. Tendo nascido no Brasil em uma família católica, uma pessoa teria mais chances de ser cristã ou muçulmana? Se trocarmos o local de nascimento para o Afeganistão, não trocamos também a direção desse gosto pessoal?

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 Os 7 pecados capitais do viajante

1 – Expectativa

Descrição do Pecado: o viajante espera tanto de sua viagem que – ao menor sinal de contrariedade – fica muito irritado. Isso acontece porque ele idealizou cada momento e se encheu de expectativas.

Exemplo: em visita ao Peru ouvi dois gringos muito decepcionados conversando. Eles reclamavam que o clima nublado tinha estragado a visita a Machu Picchu (nem estava tão nublado assim). Pareciam chocados com o fato de que a chuva era uma possibilidade durante sua incursão.

Solução: viagens fazem parte da vida real. A vida real, por sua vez, não é perfeita. Relaxe e viaje desarmado, sem idealizar. É bem mais provável que os grandes momentos da viagem surjam inesperadamente e não de acordo com o que você planejou.

2 – Despreparo

Descrição do Pecado: nesse caso o viajante não está preocupado com o básico. Deixa as coisas para a última hora, não se preocupa com a logística da viagem.

Exemplo: uma vez fui ao aeroporto tirar minha Carteira Internacional de Vacinação. Na fila tinha um cara fazendo o mesmo, só que ele ia viajar em duas horas. Acontece que a carteira de vacinação dele não tinha o número do lote da vacina de Febre Amarela, uma exigência da ANVISA. Resultado: não conseguiu embarcar.

Solução: planejar demais o roteiro é furada, pois você perde os momentos espontâneos, em geral os mais legais. Por outro lado, há que se atentar muito ao básico, em especial documentação, passagens, hospedagem, enfim, fazer o dever de casa com atenção e antecedência.

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 Viajante que é feliz demais

Essa moça é a Thaís Buratto da Silva. Ela perdeu uma bela viagem para a Indonésia porque na fila de embarque seu pai comentou algo como “ainda bem que não descobriram que você é terrorista”. Uma gracinha que custou muito caro.

Falar o que não deve é um hábito humano. Ele aparece geralmente em dois momentos distintos: ou durante um acesso de ira ou quando se está empolgado demais. Creio que no caso do pai de Thaís tenha sido empolgação pura e simples.

Não me atrevo a dizer que alguém deveria perder um vôo por causa disso, afinal terrorista nenhum se diz terrorista antes de entrar no avião. O ponto que discuto aqui é o controle das emoções, em especial da empolgação que invade o viajante antes de sua tão esperada incursão ao desconhecido.

Para compreender esse fenômeno vejamos um contexto análogo. Há nos Estados Unidos uma cadeia de lojas para entretenimento familiar chamada de Chuck E Cheese. Lá dentro as pessoas comem pizza e seus filhos podem se divertir usando uma enorme variedade de brinquedos. O local é perfeito para organizar festas de aniversário de criança. Tinha tudo para ser um ambiente de paz e diversão, mas não é bem assim. Sempre rola uma briga entre famílias no Chuck E Cheese.

E isso acontece – pasmem – por causa de excesso de felicidade.

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 A Europa começa em Roma

Minha mala apareceu na esteira do Aeroporto Ciampino com um buraco de 10 centímetros. Por sorte o forro impediu que alguma roupa saísse. Não sei como diabos aquilo aconteceu e nem me preocupei em saber. Arranjei uns pedaços de silvertape rosa (?) com um cara do guarda volumes e resolvi o problema. Roma começou assim.

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 Viajar de verdade é sair da zona de conforto

Arthur é um viajante do tipo “muitas compras e centenas de fotos no Facebook”. Faz passeios turísticos que proporcionam experiências estéreis, passa mais tempo no celular do que contemplando, só come pratos que conhece e se incomoda com qualquer coisa distinta da sua própria cultura. Arthur é completamente feliz com esse comportamento. Está fazendo o que lhe apetece, curtindo sua zona de conforto da melhor maneira possível. E quem ousaria criticar Arthur?

Há em nossa sociedade essa ideia de que – para ser feliz – é preciso se fiar no slogan “eu faço o que quero, eu faço o que gosto”. É realmente um conceito magnânimo e respeitável, base dos direitos individuais. Porém, por ser uma afirmação tão contundente, esconde perguntas extremamente complexas. Uma delas talvez seja a mais importante: será que você está fazendo o que quer ou na verdade só está fazendo o que lhe ensinaram (doutrinaram) a gostar?

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 Quando uma viagem só serve para tirar onda no Facebook

As pessoas precisam de atenção, essa é uma característica humana. Por isso atuar para atrair olhares para si não é um tipo de desvio de comportamento. O problema não é querer ser o centro das atenções, mas fazer isso sem ter nada a dizer.

As redes sociais formam um terreno fértil para esse tipo de pessoa. Aquele indivíduo que não sabe compartilhar idéias, prefere o caminho fácil da divulgação de hábitos. Assim surgem as fotos de pratos de comida, gatos, unhas pintadas com esmalte, entre outros.

Para essas pessoas as viagens são só uma desculpa para conseguir mais atenção. Não se trata de experimentar uma nova cultura, somar conhecimento ou fazer novos amigos. Trata-se de criar mais uma oportunidade de massagear o próprio ego.

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 Você viaja para onde eles querem

A imagem acima é da Igreja de Cristo em Windhoek, capital da Namíbia, um lugar que raramente aparece em alguma revista brasileira de viagens. E quando eu digo raramente é só para não usar as palavras nunca e jamais. O caso é que Windhoek não está sozinha na estatística do desaparecimento de destinos.

Entre janeiro de 2010 e abril de 2013, a revista de turismo mais lida do Brasil publicou 40 edições. Em todo esse período a imagem principal das capas abordou cenas de somente 11 países dos quase 200 existentes, todos localizados em apenas dois continentes (América e Europa). Não há sequer uma capa sobre locais na Ásia, Oceania ou África.

Evidências como essa mostram que as escolhas no campo do turismo são tarefas ilusórias. Achamos que tomamos decisões com base em nossos gostos pessoais, mas na verdade nosso imaginário foi construído de maneira limitada, quase em uma proporção de 11 para 200. É o resultado de ter como base esses guias de viagem e revistas especializadas, logo essas publicações que são feitas para vender pacotes.

É uma realidade de mercado: o destino com mais grana para investir será sempre o mais indicado nos textos, afinal as publicações impressas não vivem de brisa. Já os destinos sem verba – mesmo aqueles muito bons – simplesmente não recebem destaque em revistas e saem das listas dos viajantes brasileiros. A capital da Namíbia é um bom exemplo.

Resta então o trabalho do viajante comum, aquele indivíduo que gasta sua própria grana para conhecer o mundo e compartilhar suas experiências em um blog perdido em meio à imensidão da internet. No entanto, mesmo os textos escritos por esses bem-intencionados indivíduos podem ser enganosos.

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 A extraordinária Budapeste

A Yupin é uma tailandesa que conheci durante um mochilão pela América do Sul. Magra e baixinha, parecia a mais frágil das criaturas. Um dia fomos almoçar em uma birosca perto do albergue e me surpreendi com as suas atitudes. Sem saber quase nada de inglês ou espanhol, ela entrava nos lugares como se fosse uma habitante local.

Nos restaurantes olhava o cardápio passando a falsa impressão de que entendia tudo. Apontava para qualquer nome no menu e – se o garçom retrucasse com algum detalhe do tipo “bem passado ou mal passado” – ela acenava afirmativamente. A maldita não ligava para o que viesse, ela simplesmente comia tudo. Andava nas ruas e gesticulava, entrava na casa dos outros. Nos passeios vagava em todo e qualquer lugar, não tinha medo de se perder. Seu lema era simples:

Se você tem medo de conhecer pessoas novas, lidar com outros idiomas e experimentar pratos exóticos, então é melhor não viajar para outro país.

Quando decidi ir à Budapeste me lembrei de Yupin. Na Hungria a língua é tão complicada que mereceu até uma menção em um afamado livro de Chico Buarque. Em um dos capítulos ele diz que o húngaro é a “única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita”.

Há quem desista diante de uma viagem a um país com uma língua muito estranha. Porém, eu não estava nada preocupado. Dessa vez usaria o estilo de Yupin e pronto. Meu objetivo era provar que a falta de fluência em determinado idioma não é uma desculpa para ficar em casa.

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 O caso de quem SÓ viaja para fazer compras

Augusto e Mara viram um outdoor. Nele um casal apaixonado se beijava em uma estreita e antiga rua de Roma. A cena era primorosa, o homem e a mulher eram lindos e o dia estava claro e limpo. Observar aquele cartaz era o estímulo que faltava ao casal para organizar sua primeira viagem internacional. Depois de muita espera e prestações, lá estavam eles. O destino do passeio inaugural foi o Coliseu. Os dois ficaram muito empolgados, afinal ali o cara do filme Gladiador tinha lutado contra alguns inimigos e até matado uns leões.

Seguiram então para outras ruínas, mas aí a incursão começou a ficar chata. Colunas e mais colunas, tocos de construções, uma coisa chamada aqueduto. Ninguém tinha coragem de reclamar – ora – aquela era a viagem dos sonhos, eles deveriam viver cenas como a do cartaz. Porém, eis que sob a pressão do tédio, Augusto reagiu:

– Amor, vamos sair daqui e fazer umas comprinhas?

Nesse momento Mara compreendeu porque escolhera aquele homem para chamar de seu. O casal partiu imediatamente em busca do shopping mais próximo. Os olhos de ambos brilhavam. Vitrines, felicidade, deleite e prazer. Agora sim a viagem estava rendendo.

Os dias se passaram com essa dinâmica, uma olhadinha nas atrações e longas estadas no conforto das lojas. Quando finalmente voltaram para casa, os comentários com os amigos eram rasos. Poucos elogios às edificações milenares e muitas observações sobre o preço das roupas e dos eletrônicos.

Não é difícil achar viajantes como o casal Mara e Augusto. Perdidos em meio a uma cultura que desconhecem, eles acabam intensamente entediados. São então seduzidos pela atividade que há muito já superou a religião em adeptos: o consumo de bens materiais.

Esse tipo de viajante tem procedimentos típicos. Mesmo durante o planejamento da incursão já é possível observá-los marcando shoppings e outlets no mapa. Cortam o orçamento dos passeios e da alimentação em prol de uma graninha a mais para aquele tablet ou aquele par de sapatos.

Trocam, enfim, a oportunidade de conhecer coisas novas pelo fugaz e enganoso divertimento de acumular coisas novas.

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 A escala de 15 monumentos famosos

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 Escala de alguns monumentos em Paris

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