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Pedro Schmaus

 Sexual Personal Trainer

TEXTO COM CONTEÚDO ADULTO (+18 ANOS)

Na estrada conhecemos muitas pessoas, algumas delas sempre têm uma boa história para contar. De todos os relatos que já ouvi durante minhas incursões, o mais incrível chegou até mim em Hong Kong.

Cheguei lá no meio de uma tarde chuvosa e sem hospedagem certa. Vaguei no centro um tempo e me deparei com um lugar chamado Chungking Mansion. Basicamente um prédio comercial com cerca de catorze malandros por metro quadrado. Na porta eles ofereciam de tudo, de hotéis baratos a comida do Paquistão. Segui umas placas e achei no oitavo andar uma guesthouse de nome Beverly Hills. A estrutura era cômica a ponto do meu quarto não ter porta. Tive que aguardar uma hora até que um velho chinês instalasse uma nova. A essa altura já era noite, mas, mesmo depois do tempo no avião e de um banho quente, ainda não sentia sono algum. Provavelmente o fuso.

Resolvi conhecer as imediações. Os malandros continuavam lá em seus negócios, aparentemente algumas putas novas das Filipinas tinham chegado. Um deles era um malês de quase dois metros de altura. De alguma forma ele sabia que eu era brasileiro e veio puxar conversa. Pedi que me sugerisse um bar nas proximidades. Ele indicou o fim de uma rua a dois quarteirões de distância. Uma chuva fina insistia em sacanear, porém nada que pudesse ensopar meu casaco. Segui em meio à turba, me sentia num daqueles filmes cyberpunks. Em Hong Kong tudo é pintado de neon, tudo é multidão, há pessoas de todo canto do planeta.

O bar indicado pelo malês foi fácil de achar, um pub de estilo pretensiosamente inglês. Pedi uma Amstel e passei a observar a fauna. O ambiente era escuro e parecia vazio, exceto por um casal um tanto atípico ao fundo. O homem era um asiático alto e musculoso, muito bem vestido, traços de coreano. A mulher, uma loira da qual eu não via a face, mas podia perceber que era muito obesa. O cara a beijava com gosto, passava as mãos por tudo, ela estava por toda parte. O esfrega durou meia hora, até a moça partir pisando com desajeito em algumas poças d’água com letreiros refletidos.

O coréia acenou para a namorada e depois sentou-se comigo. Perguntou se eu falava inglês, guardava uma expressão de desabafo.

“O que achou da garota?”

Já com três cervejas no sangue e dominado pelo jet lag, respondi da maneira mais educada possível:

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 Viajar para fora e voltar falando mal do Brasil

O brasileiro médio admira sobrenomes. Não estou falando dos tipos comuns como Oliveira, Carvalho, Santos ou qualquer um da Península Ibérica. Refiro-me a sobrenomes de pronúncia complicada, provenientes da Itália, Alemanha ou Japão, coisas como Brauer, Morin, Petrucelli, Leiko, Massini ou Kimura.

Não sei onde surgiu esse entusiasmo, mas de fato o pessoal acha lindo. Ter um desses parece coisa de gente fina e educada. Há orgulho e um senso de diferenciação, como se os donos desses sobrenomes fossem portadores de uma nobreza que os meros Silva jamais possuirão. É como se tivesse uma “ascendência de primeiro mundo”, algo que os torna distintos do resto da massa miscigenada.

Eu tenho um colega assim, o Thomas Eichelberger. Ele é brasileiro, mas descende de alemães. Sempre que pode reclama do Brasil. Acha o país subdesenvolvido e maldiz o dia em que sua família deixou a Europa. É doido por um passaporte alemão. Não sabe porque ainda mora aqui, só fala em se mudar.

Certo dia estava caçoando de um senhor que falara “pobrema” em uma entrevista na TV. O sobrenome do homem era Silva e Thomas logo fez piada, dizendo que só podia ser “um Silva mesmo”. Nisso seu avô escutou a conversa e soltou o seguinte:

Thomas meu filho, entenda uma coisa. Nossa família deixou a Europa porque era paupérrima. Chegamos aqui no Brasil para ganhar a vida na roça, mal éramos alfabetizados. Para cá não veio gente bem-sucedida ou da realeza. Você já viu algum rei cruzar um oceano para vir criar galinhas ou plantar alface? Não seja bobo. Eichelberger pode parecer um sobrenome especial aqui, mas na Alemanha somos Silva como esse homem na TV.

Milhões sofrem do mesmo mal de Thomas e não importa se os seus sobrenomes são considerados diferentes ou não. São pessoas que sempre colocam o Brasil em uma posição de inferioridade se comparado com o resto do mundo, mesmo que isso não seja verdade. Gente tomada por um problema que Nelson Rodrigues chamou de complexo de vira-lata.

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Patrimônio

17 mar 2014 | por em colunas, Mundo Hiperativo às 15:54

 Patrimônio

Um jovem advogado foi indicado para inventariar os pertences de um senhor recém falecido. Segundo o relatório do seguro social, o idoso não tinha herdeiros ou parentes vivos. Suas posses eram muito simples. O apartamento alugado, um carro velho, móveis baratos e roupas puídas. “Como alguém passa toda a vida e termina só com isso?”, pensou o advogado. Anotou todos os dados e ia deixando a residência quando notou um porta-retratos sobre um criado mudo.

Na foto estava o velho morto. Ainda era jovem, sorridente, ao fundo um mar muito verde e uma praia repleta de coqueiros. À caneta escrito bem de leve no canto superior da imagem lia-se “sul da Tailândia”. Surpreso, o advogado abriu a gaveta do criado e encontrou um álbum repleto de fotografias. Lá estava o senhor, em diversos momentos da vida, em fotos em todo canto do mundo.

Em um tango na Argentina, na frente do Muro de Berlim, em um tuk tuk no Vietnã, sobre um camelo com as pirâmides ao fundo, tomando vinho em frente ao Coliseu, entre muitas outras. Na última página do álbum um mapa, quase todos os países do planeta marcados com um asterisco vermelho, indicando por onde o velho tinha passado. Escrito à mão no meio do Oceano Pacífico uma pequena poesia:

Não construí nada que me possam roubar.
Não há nada que eu possa perder.
Nada que eu possa tocar,
Nada que se possa vender.

Eu que decidi viajar,
Eu que escolhi conhecer,
Nada tenho a deixar
Porque aprendi a viver.

Abraço!

Pedro Schmaus

PS: pessoal, replicaram esse meu texto sem citar o autor, foi no Instagram de Max Porto, “o artista que queria ser um BBB e não um BBB querendo ser artista”. Algumas pessoas reclamaram, mas o dono do perfil disse que não tem como saber a verdadeira autoria, por isso ele não deu crédito. Vocês podem me ajudar?

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 As viagens à Disney e a construção do querer

Sempre sou atacado por dizer que a Disney – como destino turístico para adultos – é uma idiotice. Muitos me taxam de tirano e dogmático, afirmando que sou contra um princípio simples da liberdade: um indivíduo deve fazer aquilo que gosta.

Muito bem, notem a fragilidade dessa linha de raciocínio. Que tal um pedófilo que é feliz ao estuprar garotos de cinco anos? Impediremos esse homem de ser feliz? É claro que é um exemplo extremo, mas serve para ilustrar que a coisa não é tão simples como sugerem os filósofos dos comentários. Não se trata só de fazer o que gosta e pronto. O buraco é mais embaixo.

Começa pela própria construção do querer. Percebam que nossos gostos pessoais são o resultado de um processo bastante complexo e muitas vezes à parte de nós mesmos. Um exemplo básico seria a escolha da religião. Tendo nascido no Brasil em uma família católica, uma pessoa teria mais chances de ser cristã ou muçulmana? Se trocarmos o local de nascimento para o Afeganistão, não trocamos também a direção desse gosto pessoal?

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O Banho da Princesa é uma fonte. Fica nas ruínas da antiga cidade de Ollantaytambo, no Vale Sagrado dos Incas. Seu fluxo de água poder ser controlado com um simples toque.

As técnicas de construção dos incas causam assombro até no mais experimentado engenheiro. Há alguns anos tive a chance de apreciar parte dessas obras magníficas durante visita a Cusco e Machu Picchu (leia aqui). Infelizmente naquela ocasião não tive tempo para visitar as cidades do Vale Sagrado, mas tratei de corrigir esse erro e retornei ao Peru para ver o que tinha deixado para trás.

Assim fui apresentado a mais dois exemplos da engenhosidade inca: Pisac e Ollantaytambo.

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 Os 7 pecados capitais do viajante

1 – Expectativa

Descrição do Pecado: o viajante espera tanto de sua viagem que – ao menor sinal de contrariedade – fica muito irritado. Isso acontece porque ele idealizou cada momento e se encheu de expectativas.

Exemplo: em visita ao Peru ouvi dois gringos muito decepcionados conversando. Eles reclamavam que o clima nublado tinha estragado a visita a Machu Picchu (nem estava tão nublado assim). Pareciam chocados com o fato de que a chuva era uma possibilidade durante sua incursão.

Solução: viagens fazem parte da vida real. A vida real, por sua vez, não é perfeita. Relaxe e viaje desarmado, sem idealizar. É bem mais provável que os grandes momentos da viagem surjam inesperadamente e não de acordo com o que você planejou.

2 – Despreparo

Descrição do Pecado: nesse caso o viajante não está preocupado com o básico. Deixa as coisas para a última hora, não se preocupa com a logística da viagem.

Exemplo: uma vez fui ao aeroporto tirar minha Carteira Internacional de Vacinação. Na fila tinha um cara fazendo o mesmo, só que ele ia viajar em duas horas. Acontece que a carteira de vacinação dele não tinha o número do lote da vacina de Febre Amarela, uma exigência da ANVISA. Resultado: não conseguiu embarcar.

Solução: planejar demais o roteiro é furada, pois você perde os momentos espontâneos, em geral os mais legais. Por outro lado, há que se atentar muito ao básico, em especial documentação, passagens, hospedagem, enfim, fazer o dever de casa com atenção e antecedência.

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 Viajante que é feliz demais

Essa moça é a Thaís Buratto da Silva. Ela perdeu uma bela viagem para a Indonésia porque na fila de embarque seu pai comentou algo como “ainda bem que não descobriram que você é terrorista”. Uma gracinha que custou muito caro.

Falar o que não deve é um hábito humano. Ele aparece geralmente em dois momentos distintos: ou durante um acesso de ira ou quando se está empolgado demais. Creio que no caso do pai de Thaís tenha sido empolgação pura e simples.

Não me atrevo a dizer que alguém deveria perder um vôo por causa disso, afinal terrorista nenhum se diz terrorista antes de entrar no avião. O ponto que discuto aqui é o controle das emoções, em especial da empolgação que invade o viajante antes de sua tão esperada incursão ao desconhecido.

Para compreender esse fenômeno vejamos um contexto análogo. Há nos Estados Unidos uma cadeia de lojas para entretenimento familiar chamada de Chuck E Cheese. Lá dentro as pessoas comem pizza e seus filhos podem se divertir usando uma enorme variedade de brinquedos. O local é perfeito para organizar festas de aniversário de criança. Tinha tudo para ser um ambiente de paz e diversão, mas não é bem assim. Sempre rola uma briga entre famílias no Chuck E Cheese.

E isso acontece – pasmem – por causa de excesso de felicidade.

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 A Europa começa em Roma

Minha mala apareceu na esteira do Aeroporto Ciampino com um buraco de 10 centímetros. Por sorte o forro impediu que alguma roupa saísse. Não sei como diabos aquilo aconteceu e nem me preocupei em saber. Arranjei uns pedaços de silvertape rosa (?) com um cara do guarda volumes e resolvi o problema. Roma começou assim.

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 Viajar de verdade é sair da zona de conforto

Arthur é um viajante do tipo “muitas compras e centenas de fotos no Facebook”. Faz passeios turísticos que proporcionam experiências estéreis, passa mais tempo no celular do que contemplando, só come pratos que conhece e se incomoda com qualquer coisa distinta da sua própria cultura. Arthur é completamente feliz com esse comportamento. Está fazendo o que lhe apetece, curtindo sua zona de conforto da melhor maneira possível. E quem ousaria criticar Arthur?

Há em nossa sociedade essa ideia de que – para ser feliz – é preciso se fiar no slogan “eu faço o que quero, eu faço o que gosto”. É realmente um conceito magnânimo e respeitável, base dos direitos individuais. Porém, por ser uma afirmação tão contundente, esconde perguntas extremamente complexas. Uma delas talvez seja a mais importante: será que você está fazendo o que quer ou na verdade só está fazendo o que lhe ensinaram (doutrinaram) a gostar?

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 Quando uma viagem só serve para tirar onda no Facebook

As pessoas precisam de atenção, essa é uma característica humana. Por isso atuar para atrair olhares para si não é um tipo de desvio de comportamento. O problema não é querer ser o centro das atenções, mas fazer isso sem ter nada a dizer.

As redes sociais formam um terreno fértil para esse tipo de pessoa. Aquele indivíduo que não sabe compartilhar idéias, prefere o caminho fácil da divulgação de hábitos. Assim surgem as fotos de pratos de comida, gatos, unhas pintadas com esmalte, entre outros.

Para essas pessoas as viagens são só uma desculpa para conseguir mais atenção. Não se trata de experimentar uma nova cultura, somar conhecimento ou fazer novos amigos. Trata-se de criar mais uma oportunidade de massagear o próprio ego.

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 Em Lima, sem expectativas

O Rossano era um garoto grandalhão e engraçado. Tinha uma voz esquisita e usava umas roupas folgadas demais, os cabelos mal cortados. Os caras da escola o consideravam um sujeito simplório. Ninguém sabia muito da vida dele, exceto que vinha de ônibus e possuía um sotaque meio de roceiro. Estava longe da aparência e dos modos da molecada mais rica, não fazia o estilo “filho de comerciante”.

Um dia marcaram um trabalho na casa dele e todo mundo ficou surpreso com o sobrado de três pavimentos. O lanche preparado pela empregada tinha tudo quanto era embutido, pão e doce. Um dos camaradas não resistiu:

- Porra Rossano, tu é rico cara!

E pela primeira vez alguém ouviu o Rossano falar alguma coisa sobre sua vida pessoal. Seu pai era dono de uma rede de supermercados e motéis na capital, mas ele morava ali porque era perto da fazenda da família. Ao contrário dos outros playbas, Rossano desejava trabalhar com produção de leite e não podia dirigir antes dos 18 anos, pois o pai não deixava. Para completar o FDP tinha ficado com a Ana, uma loirinha deliciosa.

Rossano era a surpresa que aparece quando as pessoas não alimentam expectativas. Como diz o Satã (Al Pacino) no ótimo filme Advogado do Diabo:

Outro dia eu comi uma mulher em quarenta posições diferentes. Nós terminamos, ela estava andando para o banheiro, ou melhor, estava tentando andar para o banheiro, quando olhou para mim e me observou com cuidado. Era eu, não era o maldito exército de Tróia que a tinha comido, só eu. Ela tinha essa olhar no rosto, esse olhar que dizia “como diabos isso aconteceu?” (…) não interessa o quanto você seja bom, não deixe que as pessoas notem, esse é o segredo. Mantenha-se pequeno, inócuo. Seja o menor, o nerd, o merda. Olhe para mim: subestimado desde o primeiro dia. Você nunca pensaria que eu sou o mestre do Universo, pensaria?

Rossano e o Diabo surpreenderam as pessoas à sua volta da mesma maneira que Lima me surpreendeu. Eu esperava apenas mais uma cidade grande da América do Sul, uma mera escala. Não poderia estar mais enganado: a capital do Peru se tornou uma das melhores surpresas da minha estrada.

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 Você viaja para onde eles querem

A imagem acima é da Igreja de Cristo em Windhoek, capital da Namíbia, um lugar que raramente aparece em alguma revista brasileira de viagens. E quando eu digo raramente é só para não usar as palavras nunca e jamais. O caso é que Windhoek não está sozinha na estatística do desaparecimento de destinos.

Entre janeiro de 2010 e abril de 2013, a revista de turismo mais lida do Brasil publicou 40 edições. Em todo esse período a imagem principal das capas abordou cenas de somente 11 países dos quase 200 existentes, todos localizados em apenas dois continentes (América e Europa). Não há sequer uma capa sobre locais na Ásia, Oceania ou África.

Evidências como essa mostram que as escolhas no campo do turismo são tarefas ilusórias. Achamos que tomamos decisões com base em nossos gostos pessoais, mas na verdade nosso imaginário foi construído de maneira limitada, quase em uma proporção de 11 para 200. É o resultado de ter como base esses guias de viagem e revistas especializadas, logo essas publicações que são feitas para vender pacotes.

É uma realidade de mercado: o destino com mais grana para investir será sempre o mais indicado nos textos, afinal as publicações impressas não vivem de brisa. Já os destinos sem verba – mesmo aqueles muito bons – simplesmente não recebem destaque em revistas e saem das listas dos viajantes brasileiros. A capital da Namíbia é um bom exemplo.

Resta então o trabalho do viajante comum, aquele indivíduo que gasta sua própria grana para conhecer o mundo e compartilhar suas experiências em um blog perdido em meio à imensidão da internet. No entanto, mesmo os textos escritos por esses bem-intencionados indivíduos podem ser enganosos.

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 A extraordinária Budapeste

A Yupin é uma tailandesa que conheci durante um mochilão pela América do Sul. Magra e baixinha, parecia a mais frágil das criaturas. Um dia fomos almoçar em uma birosca perto do albergue e me surpreendi com as suas atitudes. Sem saber quase nada de inglês ou espanhol, ela entrava nos lugares como se fosse uma habitante local.

Nos restaurantes olhava o cardápio passando a falsa impressão de que entendia tudo. Apontava para qualquer nome no menu e – se o garçom retrucasse com algum detalhe do tipo “bem passado ou mal passado” – ela acenava afirmativamente. A maldita não ligava para o que viesse, ela simplesmente comia tudo. Andava nas ruas e gesticulava, entrava na casa dos outros. Nos passeios vagava em todo e qualquer lugar, não tinha medo de se perder. Seu lema era simples:

Se você tem medo de conhecer pessoas novas, lidar com outros idiomas e experimentar pratos exóticos, então é melhor não viajar para outro país.

Quando decidi ir à Budapeste me lembrei de Yupin. Na Hungria a língua é tão complicada que mereceu até uma menção em um afamado livro de Chico Buarque. Em um dos capítulos ele diz que o húngaro é a “única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita”.

Há quem desista diante de uma viagem a um país com uma língua muito estranha. Porém, eu não estava nada preocupado. Dessa vez usaria o estilo de Yupin e pronto. Meu objetivo era provar que a falta de fluência em determinado idioma não é uma desculpa para ficar em casa.

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 O caso de quem SÓ viaja para fazer compras

Augusto e Mara viram um outdoor. Nele um casal apaixonado se beijava em uma estreita e antiga rua de Roma. A cena era primorosa, o homem e a mulher eram lindos e o dia estava claro e limpo. Observar aquele cartaz era o estímulo que faltava ao casal para organizar sua primeira viagem internacional. Depois de muita espera e prestações, lá estavam eles. O destino do passeio inaugural foi o Coliseu. Os dois ficaram muito empolgados, afinal ali o cara do filme Gladiador tinha lutado contra alguns inimigos e até matado uns leões.

Seguiram então para outras ruínas, mas aí a incursão começou a ficar chata. Colunas e mais colunas, tocos de construções, uma coisa chamada aqueduto. Ninguém tinha coragem de reclamar – ora – aquela era a viagem dos sonhos, eles deveriam viver cenas como a do cartaz. Porém, eis que sob a pressão do tédio, Augusto reagiu:

- Amor, vamos sair daqui e fazer umas comprinhas?

Nesse momento Mara compreendeu porque escolhera aquele homem para chamar de seu. O casal partiu imediatamente em busca do shopping mais próximo. Os olhos de ambos brilhavam. Vitrines, felicidade, deleite e prazer. Agora sim a viagem estava rendendo.

Os dias se passaram com essa dinâmica, uma olhadinha nas atrações e longas estadas no conforto das lojas. Quando finalmente voltaram para casa, os comentários com os amigos eram rasos. Poucos elogios às edificações milenares e muitas observações sobre o preço das roupas e dos eletrônicos.

Não é difícil achar viajantes como o casal Mara e Augusto. Perdidos em meio a uma cultura que desconhecem, eles acabam intensamente entediados. São então seduzidos pela atividade que há muito já superou a religião em adeptos: o consumo de bens materiais.

Esse tipo de viajante tem procedimentos típicos. Mesmo durante o planejamento da incursão já é possível observá-los marcando shoppings e outlets no mapa. Cortam o orçamento dos passeios e da alimentação em prol de uma graninha a mais para aquele tablet ou aquele par de sapatos.

Trocam, enfim, a oportunidade de conhecer coisas novas pelo fugaz e enganoso divertimento de acumular coisas novas.

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 A escala de 15 monumentos famosos

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