Raphael Draccon apresenta, ou a melhor série de fantasia do mundo enfim no Brasil… 2 fev 2010 | por Raphael Draccon em Cavernas & Dragões às 12:03

E estava já na hora dessa coluna de literatura fantástica/sobrenatural retornar.
Foi um mês de férias, mas estamos de volta e admito que da parte de cá foi sentida falta dessa troca com vocês. Eu ia abrir a coluna desse ano acatando os pedidos pelo “Eragon”, mas só vou poder fazer isso na próxima.
Entretanto, para podermos voltar a estabelecer contato, e para aproveitar e anunciar uma notícia bacana para o pessoal que ama literatura fantástica, escrevo esse post diferente aqui.
Vamos lá:
Vocês se lembram do belíssimo filme chinês “Herói”?
Filme de qualidade técnica impecável e história poderosa, na época em que foi lançado foi o filme mais caro da China e se tornou uma das duas maiores aberturas nos EUA para um filme em língua estrangeira, perdendo só para “A Paixão de Cristo”.
O mais curioso, porém, era aquele detalhe que aparecia no pôster antes de qualquer coisa: “Quentin Tarantino apresenta…”.
De fato, a Miramax possuía os direitos do filme, mas coube a Tarantino, admirador do gênero que não tinha nada a ver com a produção do filme, batalhar e convencer os executivos a lançá-lo comercialmente nos cinemas.
Bom, fora do cinema e dentro dos domínios da nossa literatura, eu tive meu próprio “momento tarantino” e embarquei em uma jornada parecida, que começou há aproximadamente um ano e meio, batalhando com meus editores para lançar uma obra igualmente cinco estrelas por aqui.
E depois de meses de esforço, consegui ajudar a trazer ao nosso mercado provavelmente o título de fantasia mais esperado pelo fanatic kingdon daqui. E se você é um leitor de literatura fantástica, acredito que irá enlouquecer com a história quando puder tê-las nas mãos.
E acho que já está na hora de eu lhe contar melhor sobre ela.
***
Mesa de Escritório
A “Mesa de Escritório” é um subpost que virá sempre antes de cada post nosso, com algumas dicas ou sugestões espalhadas por aqui.
Pode haver livros que lhe interessem dar uma olhada melhor, convites de bons eventos, algum dvd perdido que talvez você não tenha visto e de repente vá gostar; coisas do tipo.
Por exemplo, hoje por aqui tem dois livros muito bem editados, que recebi da editora Devir, ambos com responsabilidade de Roberto de Souza Causo, crítico de fantasia do portal Terra e conhecido daqueles jogadores de RPG mais antigos, que liam os contos da “Dragão Brasil” original.
(Roberto de Souza Causo pensando em como parecia Sherlock Holmes, antes do xará Robert Downey Jr. estragar tudo…)
O primeiro deles estréia o selo de literatura de horror da Devir, o Pentagrama, com Anjo de Dor.
O segundo é uma antologia com nomes espetaculares da fantasia mundial, chamado Rumo À Fantasia.
É possível ler um trecho do primeiro, aliás, na própria coluna do escritor aqui.
Outro é um filme que me foi indicado pela Vivi Amaral, do Cinefantasy, como “um filme pouco conhecido e que era um dos melhores filmes de fantasia que ela já tinha visto na vida”.
E detalhe: essa menina vê filme pra caramba, de tudo quanto é parte do mundo, só para fazer a triagem do festival.
Bem, o filme se chama Dublê de Anjo (The Fall).
E no trailer você já sente que vem coisa boa quando percebe que ele foi produzido por David Fincher (Se7en; Benjamin Button) e Spike Jonze (Onde vivem os Monstros). A junção de uma dupla dessa tinha de dar certo, não?
O fato é que eu vi o filme. E o resultado… bom… é um dos melhores de fantasia que eu já vi na vida. E você ainda vai reparar que Avatar chupou uma das cenas do filme.
Outra: esse ano também vou premiar leitores com mais livros lá pelo twitter. Só que em vez de sorteio, vou escolher alguém pelos comentários daqui e divulgar o resultado por lá.
O primeiro livro desse ano será o épico do Leandro Reis, Filhos de Galagh. Mas falo mais sobre isso no próximo post.
Agora, vamos ao post de hoje.
***
Como citado no início do post, esse ano tive meu “momento Tarantino” e batalhei meses para que a minha editora trouxesse para nossas terras talvez a melhor série de literatura fantástica da atualidade, e com certeza uma das melhores de todos os tempos.
E se você não a conhece, sem problemas, você irá conhecê-la.
Vamos lá?
Raphael Draccon & Editora Leya apresentam…
Vencedora do Locus Award, e indicada ao Nebula, ao Hugo, ao Ignotus, ao British Fantasy Award e ao World Fantasy Award, reverenciada por nomes como Neil Gaiman e Bernard Cornwell, e transformada em cenário de tabuleiro, card game, RPG de mesa, videogame e série da HBO, A Song of Ice and Fire é uma série devastadora, que mais parece um trem bala japonês sem possibilidade de freio.
George R.R. Martin é um escritor grandioso e um roteirista que trabalhou por mais de dez anos em Hollywood. A Song of Ice and Fire é uma série de fantasia para adultos iniciada em 1991, e cujo primeiro volume acabou por ser publicado apenas em 1996.
É uma série de fantasia tão espetacular e popular na Europa e EUA, que muitos (muitos mesmo) a consideram a melhor série de fantasia de todos os tempos, mais até do que “O Senhor dos Anéis”.
Inspirada na “Guerra das Rosas”, a série conta a história de um continente chamado Westeros, dominado pelos Sete Reinos. O local é uma espécie de mega Inglaterra medieval do tamanho da América do Sul. Esse continente está separado do outro por um mar estreito (que por sinal remete ao Canal Da Mancha) e possui uma barreira (The Wall), que separa o mundo civilizado do mundo selvagem.
O clima é um personagem à parte, o verão e o inverno podem durar anos (até mais de dez anos!), e as pessoas têm de se preparar e adaptar suas vidas a isso.
O cenário não se trata exatamente da “fantasia clássica” com os tradicionais elementos high fantasy. Não existe um escolhido para salvar o mundo; não existem elfos em guerra com anões.
De fato, os livros trabalham mais com intriga política e a magia da série remete à uma magia mais ritualística, pois em parte está mais ligada à religião em comunhão com a vida na floresta. Em Westeros, o povo antigo, por exemplo, adorava deuses árvores e eram chamadas “Crianças das Floresta”, uma raça que vivia em harmonia com a natureza bem ao estilo celta de ser. Logo, cada castelo tem uma” floresta divina” onde crescem “weirwood”, lindas e bizarras árvores brancas que parecem ter expressões nascidas de protuberâncias e seiva vermelha.
Só que um dia os “Andals” vieram do oeste e trouxeram com ele os Sete, sete deuses que viraram um só para substituir o culto anterior (em referência direta ao deus cristão único que chegara para substituir os deuses celtas).
“A Game of Throne”, o primeiro volume, é sobre a disputa de uma grande nação após a morte do rei Robert, e de toda intriga que envolve uma disputa desse porte, com aliados, inimigos, herdeiros e filhos bastardos.
No cenário onde existem Sete Reinos, acompanhamos uma monarquia formada a base de muito sangue, instabilidade e intriga para se descobrir quem se sentará no Trono de Ferro. Afinal, nesse jogo ou se ganha ou se morre. E é essa fragilidade que dará origem ao “Jogo de Tronos” do título (se você quiser saber mais detalhes sobre a trama, há um link em português na Wikipédia aqui).
(Sean Bean, o Boromir de SdA, mudou de lado e estrela a adaptação)
O diferencial dessa série está em seus personagens densos e na forma como Martin alterna os pontos de vista. Apenas no primeiro livro, nós acompanhamos oito pontos de vistas diferentes, mais a visão de Will no prólogo. Os personagens acertam e cometem erros de maneira crível, e você tem de aprender a amá-los, odiá-los ou perdoá-los por isso.
Há diversas casas, e cada uma delas tem seu próprio motivo e propósito pela busca do poder, algumas vezes tendo de suportar aliados e inimigo na espera pelos embates.
Os livros são tão épicos nas batalhas em campos de guerra quanto o são em salões de castelos no desenvolvimento de intrigas políticas.
São vários personagens e todos eles têm uma profundidade psicológica bem construída. A trama política envolvendo o Jogo de Trono provavelmente será a mais complexa e bem-arquitetada que você já viu em um livro, e prometo que você terá noites de insônia virando páginas e mais páginas, e de vez em quando se emocionando fundo com determinadas passagens.
E é uma fantasia hardcore! Hardcore mesmo. Quando digo que George Martin é um “Tolkien para adultos”, eu falo sério. O livro tem sangue, sexo e violência desenfreada e faz muitas batalhas do Conan parecerem uma desavença de um churrasco entre amigos.
O artista Mark Evans fez alguns exelentes desenhos em uma galeria sobre a série, com trechos do livro até. Veja aqui.
Aqui abaixo, segue um vídeo gravado por um cinegrafista epilético na ComicCon, onde Martin lê um trecho de “A Dance With Dragons”, o quinto livro da série, prometido para esse ano.
Para a série sair aqui no Brasil foi uma batalha.
Na verdade, eu nunca entendi o que uma editora brasileira estava esperando para trazer essa série ao mercado.
Lembrou-me quando Peter Jackson disse que sempre ficou esperando fazerem um filme sobre “O Senhor dos Anéis”. Como o tempo foi passando e ninguém o fez, deu tempo dele se especializar como cineasta e ele mesmo decidir tocar a coisa.
Com as devidas proporções, eu também fiquei esperando publicarem essa série por aqui há tempos. Aí como o tempo foi passando e ninguém o fez, deu tempo de eu virar romancista e estrear a série do “Dragões de Éter”por uma holding espanhola, virar peça-chave de uma holding portuguesa e ainda passar um ano e meio batalhando pela série por aqui.
O sucesso externo, os prêmios e a minha empolgação foram importantes, e o fato da HBO começar a produzir a série ajudou ainda mais nos argumentos ( aliás, segue abaixo um vídeo mostrando o elenco escalado).
Passado essa fase, veio uma segunda ainda mais difícil: a negociação. A agente de George Martin não é lá a pessoa mais fácil do mundo de se lidar (no fundo, agentes nunca são), e a Leya, na figura da Mariana Rolier, conduziu de maneira brilhante o processo. Acredite, há de se ter talento para isso também.
O fato é que agora a editora possuí os direitos dos quatro titulos já lançados da série e eu vou acompanhar o processo de preparação, tradução e coisas do tipo. Aí conforme sair capa e coisas do tipo, e for autorizado, eu vou compartilhando.
O livro irá chegar no segundo semestre desse ano. E para coroar de vez, minha vontade seria a de conseguir convencer a trazer o próprio George Martin para uma Bienal ou evento do tipo. Mas aí já começa a depender da aceitação do nosso mercado com a série.
Da minha parte, só vai me restar torcer para todo o esforço ter valido à pena, que vocês amem a história e a série possa continuar a ser publicada.
















Pingback: Gabriel Oliva Brum
Pingback: A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte I: Um Breve Resumo da Trama « Leitura Escrita
Pingback: Débora Souza
Pingback: Junior Gadelha
Pingback: Elrohir Macfly
Pingback: Winicyus Nolêto
Pingback: Felipe Barbosa
Pingback: Renan
Pingback: Eric Novello » Blog Archive » A fantasia rompe barreiras
Pingback: Luana Moreno
Pingback: Raphael Draccon
Pingback: O Dia da Toalha, ou os seus motivos para se orgulhar do seu lado nerd