Vampires Rulez, ou por que Pokémon pode explicar o sucesso de Crepúsculo… 16 out 2009 | por Raphael Draccon em Cavernas & Dragões às 0:11
E parece que a coluna andou mesmo vingando. Foram aproximadamente 80 comentários até aqui sobre o texto “Os Quatro Fantásticos“, que demonstra a diferença entre os estilos de King, Matheson, Vianco e Gaiman, e parece que pela maioria houve uma boa aprovação.
Em meu nome e no desse querido blog, agradeço de coração a preferência.
Aproveitando a onda feminina “vampiros-me-peguem”, que engloba desde “True Blood” e “Vampires’s Diaries” até a espera pelo longa-metragem de “Lua Nova” em novembro, vamos dedicar a coluna de hoje em parte ao fenômeno “Crepúsculo” de uma abordagem diferente.
Dois avisos apenas, antes do post de hoje:
a) Vou sortear como prometido lá nos meus seguidores do Twitter, “O Caminho do Poço das Lágrimas”, autografado pelo André Vianco, de hoje até quarta-feira que vem.
Para concorrer basta me seguir e, como muitos já fizeram, me enviar ou enviar uma mensagem que contenha o @raphaeldraccon. Logo, você pode dar um RT no post da semana, pode contar para um amigo que há um sorteio de livros todo mês, pode citar uma opinião sobre um filme de temática fantástica, pode falar dos seus autores preferidos, pode indicar um livro, pode fazer o que quiser; basta colocar o @raphaeldraccon para eu lhe encontrar no sorteio do livro.
Depois dou um print no sorteado e coloco lá no meu blog, ok?
b) Andei recebendo mensagens do pessoal que quer ser escritor, perguntando sobre o mercado editorial e tal, outros comentando sobre “Dragões de Éter”, ou questionando sobre o mercado de fantasia no Brasil.
Para quem se interessar pelo tema, haverá uma oportunidade de ouro nesse sábado, do dia 17/10, em São Paulo, na Livraria Cultura, do Market Place. O fato foi que a livraria acabou – sem querer – montando um excelente evento para fãs de fantasia: estarão presentes de uma única vez o André Vianco, eu e a escritora Helena Gomes, do “O Arqueiro e a Feiticeira” e “Lobo Alpha”. O Vianco irá falar sobre vampiros e a obra dele às 16 horas, e eu e Helena Gomes comentamos sobre fantasia e o mercado editorial fantástico no país às 18 horas, também como abertura para o lançamento exclusivo na livraria do “Dragões de Éter – Corações de Neve”.
Logo, todos vocês são nossos convidados e podemos trocar mais sobre o assunto ao vivo. E aqueles que lá chegarem através do “Sedentários…”, por favor venham falar comigo e me comuniquem, ok?
Agora vamos ao post de hoje.
***
Vampires Rulez, ou por que Pokémon pode explicar o sucesso de Crepúsculo…
Sério, eu li “Crepúsculo”.
“Lua Nova” se aproxima, camisas de “Team Edward” ou “Team Jacob” proliferam, fãs se desesperaram na Comic-Con dessa ano para ver cenas do filme, e acho interessante abordarmos o assunto. Como bom viciado em cultura pop, tentei compreender a comoção que essa obra causou – e ainda causa – no mundo.
E formei uma opinião.
Para que eu a explique é preciso, contudo, que você acompanhe um curioso raciocínio comigo.
O início da minha carreira, lá no primeiro período de faculdade, foi como estagiário de roteiros de uma produtora chamada Intervalo Produções, que, apesar do nome, era na verdade especializada em animações e efeitos especiais.
Na época havia chegado até lá porque a produtora tinha um projeto ambicioso: produzir o primeiro “anime feito no Brasil”. Eram tempos em que as crianças não haviam tido o tempo dos Cavaleiros do Zodíaco, e Naruto nem sonhava virar ninja, e que o anime sensação da época era o esdrúxulo… Pokémon.
Como a Intervalo só conseguiria que lhe dessem dinheiro para algo que “parecesse” um sucesso, a solução encontrada por eles havia sido criar os… Dogmons!
Bem, é meio isso mesmo que você está pensando: Pokémon era a abreviação de pocket-monster, e os tais Dogmons… é, é isso aí! Saiam realmente os Pikachus e Psyducks e entravam os dogmonster como “Greendog”, “Beedog” e coisas do tipo. A aventura se passava no Brasil, a animação não era lá das piores (dentro do orçamento que os caras tinham) e os três personagens principais iam parar no tal planeta canino através de um portal na Pedra da Gávea.
(isso, na Pedra da Gávea sim…)
Chegaram a produzir um episódio-piloto e, se se descartasse o lado weird/bisonho da coisa, havia algo de divertido (ou engraçado, que são sensações que caminham mesmo próximas) em se ver “Pokémons brasileiros” caminhando em cenários conhecidos.
Que seja; o fato era que na época eu mexi no pouco que me deixavam mexer dos textos que já estavam escritos (estagiário, lembram?), e depois escrevi os que faltavam (e nunca foram produzidos, mas ao menos pagaram uma parte da minha faculdade).
Só que, para chegar no estágio de escrever os scripts que faltavam, eu tive de participar de um intensivo sobre os detalhes que corriam por detrás dos animes japoneses; detalhes meticulosamente planejados dentre salas apertadas com decorações samurais para fisgar a audiência e tirar o máximo possível de lucro do produto final (aliás, dá pra fazer um post só sobre o assunto ainda).
E, afinal o que isso teria a ver com “Crepúsculo”?
Bom, é que lendo o livro eu me sentia de volta àquela cadeira de estagiário na sala da Intervalo, revendo conceitos planejados pelos produtores de animação japonesa.
Caras, é um fato: “Crepúsculo” é um shojo (mangás voltados para o público feminino) em live action na literatura. Confuso? Ok, alguns exemplos:
Em animes para crianças, de preferência os personagens devem ser de classe média para cima (partindo mesmo do princípio de que ninguém quer ver pobre nas animações…) .
Em “Crepúsculo”, Bella espera ganhar um carro e até ganha do pai uma lata velha estilo cult, à espera da visita do Luciano Huck. Entretanto, ela tem computador, acesso à internet, sai pra jantar fora com as amigas, vai a livrarias comprar livros (certo, lá nos EUA livro é mais barato do que aqui, mas isso demonstra um grau de cultura da personagem já um pouco mais acentuado); em outras palavras: ela não é rica, mas também está longe de ser pobre.
Um personagem deve identificar o problema, mas não saber como colocar a solução em prática. Outro personagem saberá como colocar a solução em prática, mas alguém deve lhe ajudar a identificar o problema.
Bella sempre sabe quais os problemas, mas não sabe como resolvê-los (ou não tem coragem de fazê-lo). Edward nunca sabe direito o que tem de ser feito (eu a amo, eu a deixo, eu a transformo, eu a troco por Sookie…), mas quando identificado um problema, ele vai lá e resolve (enganar o pai de Bella, impedir assalto, caçar rastreadores…).
d) Tire o personagem de um mundo normal e jogue-o em um mundo alienígena para ele.
Ok, Bella não entra em nenhum portal. Mas trocar Phoenix por Forks foi como entrar em um portal na Pedra da Gávea e sair no planeta Canis 2-b.
c) Não use palavrões. Nem palavras de baixo calão. Nunca.
Alguém acredita que um dia Edward irá dizer um mísero f@#k? Mas nunca, nem quando ele crescer…
d) Não mostre sangue.
É por isso que em animes pra crianças se dá preferência a se destruir robôs ou alienígenas do que seres humanos. “Crepúsculo” provavelmente é o romance de vampiro com menos sangue da história da literatura. Como disse o próprio Vianco na Bienal do RJ desse ano: “A minha impressão é a de que se o Edward ver sangue, ele desmaia…”.
d) Evite referências sexuais.
Aqui é a parte mais interessante. O sexo em “Crepúsculo” (ou a falta dele…).
O sexo e o terror/horror sempre estiveram muito próximos (aliás, também dá pra fazer um post só sobre isso), e abordados de maneiras diferentes. Mas em todas as obras sempre havia uma relação: o sexo no horror nunca foi seguro. Isso vai desde a relação sadomasoquista dos cenobitas de Clive Barker até os peladões que sempre morrem primeiro nas mãos de Jason.
Entretanto, “Crepúsculo” revoluciona isso (se você quiser chamar assim). Porque ali não; ali o sexo é seguro! Mesmo porque não há sexo, ou ao menos não há a conotação de sexo!
O que Edward e Bella possuem (seja lá o que for), bom… não engravida nem infecta através de doenças sexualmente transmissíveis.
Diabos, podem colocar uma maçã na capa simbolizando a tentação do pecado de Eva, as referências sexuais do livro de fato sempre envolvem cores e metáforas que não preocupariam nenhum pai.
- Quais são as suas intenções com a minha filha? – qualquer pai poderia perguntar a Edward, olhando-o de lado.
- Ah, não se preocupe; são as melhores. Nós só planejamos encarar de maneira extasiante o entardecer, corrermos livres pela floresta e brilharmos como purpurina um pouco…
Sacaram a coisa?
As metáforas ali envolvem a excitação de se correr livre pela mata (vestidos, claro, não como o lobisomen peladão de “True Blood”), de sentir a pele diferente ao toque, de se dirigir em alta velocidade impune e consciente, de se ver luzes refletindo no corpo.
Edward vela o sono de Bella todas as noites, mas por mais que a deseje a ponto de doer dentro dele, ele nunca a toca e nem mesmo toca… bom…
O fato é que sexo em “Crepúsculo” é tão seguro quanto em um filme de “High School Music”.
(Aliás, eu ainda não entendi até agora por que Edward e os irmãos vão à escola, se devem ser mais velhos do que todos os alunos juntos…)
Agora, não é um livro que “não dá pra ler” ou para se criar uma comunidade de ódio pela autora. Meyers fez o que teve vontade de fazer, sem pretensão e sem imaginar que iria entrar na lista das pessoas mais influentes do mundo.
Acredite, a gente faz muito menos idéia do que estamos fazendo no primeiro livro do que se parece.
Acho que mestre King poderia esperar um pouco antes de detonar a coitada (vocês sabem que ele detonou publicamente a autora, não?). Afinal, ele próprio fez um prefácio meio que pedindo desculpas pelo volume 1 da “Torre Negra”, e pedindo ao leitor para continuar ao longo da saga porque ele foi se tornando um escritor melhor.
Comparar Meyers, que começou agora, com Rowling, que já teve uma década para se afiar, é uma covardia. A não ser que ele comparasse a Meyers de hoje com a Rowling de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, que ainda não era tão boa quanto a de “Harry Potter e as Relíquias da Morte”.
O problema de tudo está apenas no fato de que a mídia vende “Crepúsculo” como um fenômeno para qualquer pessoa. E ele é direcionado a um público bem específico.
Um adorador de Stephen King, Clive Barker ou Peter Straub sacanear as adolescentes apaixonadas pela obra é como sacanear as fãs de “Diário de Princesa” ou de “Gossip Girl”. Sabe, não faz lá muito sentido se você não fizer parte do público-alvo da obra.
Nesse ponto concordo com Kevin Smith no Comic-Con desse ano.
E para finalizar, retorno ao raciocínio inicial dos Pokémons:
Enquanto estudávamos os processos de anime, nos deparamos com um fenômeno: em todo lugar do mundo, Pokémon sempre tinha o dobro da audiência da cópia Digimon. A princípio isso não havia explicação (certo, era cópia, mas o nível de animação era profissional), e então se estudando se descobriu a resposta: isso acontecia porque Digimón era um desenho feito para meninos;
Pokémon era um desenho feito para meninos e meninas.
Na mesma proporção, compreende-se porque Harry Potter e Crepúsculo seguem no mesmo raciocínio.
E a questão que se levanta aqui é: afinal de contas, para você Crepúsculo é tão bom quanto elas dizem, ou tão ruim quanto eles falam?












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