Grande Colisor de Hádrons: O fim… do começo… do fim… 10 set 2008 | por Kentaro Mori em Dúvida Razoável às 19:08
É um dos locais mais gelados da Galáxia, que gerará por frações de segundos algumas das porções mais quentes do Universo. É o maior e mais complexo instrumento eletrônico único já construído pela espécie humana, em um dos maiores empreendimentos científicos da história.
É o Grande Colisor de Hádrons, ou LHC. Será também o fim do mundo? (Spoiler: não) Resumimos aqui esclarecimentos simples sobre o tema para seu conforto – ou o da pessoa babando histérica a seu lado sobre as sete trombetas.

APOCALHIPCE!
Cuidado: o computador à sua frente é algo muito, muito mais perigoso que o LHC. Antes de mais nada, se for um desengonçado monitor CRT que está à sua frente, então a um metro de distância de seu rosto há um… acelerador de partículas! Conhecido também como canhão de elétrons! Mirando em você! Pelos Bósons de Higgs, é o fim!
Ou não, claro. O canhão de elétrons dentro de todo monitor CRT – e toda televisão comum – funciona em princípio como o LHC, acelerando partículas subatômicas através de campos elétricos e ímãs potentes sincronizados. Os elétrons acelerados atingem a tela e excitam outras partículas que acabam então emitindo fótons, vulgo luz, que é o que enxergamos. Também não é muito diferente do que o LHC faz, acelerando e colidindo partículas para ver seus resultados. Nada disso é realmente perigoso por si mesmo.
Por isso, se alguém próximo de você tiver ataques de histeria por causa de um certo “acelerador de partículas” que os cientistas malucos inventaram lá na Zoropa, revele calmamente a verdade sobre a televisão da sala de estar. Esses cientistas mancomunados conseguiram disseminar aceleradores de partículas em praticamente toda residência do planeta ao longo das últimas décadas. (In)felizmente, o plano deles não deu certo, porque nenhum desses aparelhos conhecidos como TV causou o fim da humanidade. Pelo menos não de uma só vez.
A maior ironia é que o pânico sobre o grande acelerador de partículas seja disseminado através de milhões de pequenos aceleradores de partículas a telespectadores ou internautas insuspeitos. Já voltamos a isto.

INGREDIENTES NATURAIS
É verdade que a potência dos aceleradores do LHC é um tanto maior do que a de um canhão de elétrons em uma televisão comum. Mas então temos outra notícia. Colisões altamente energéticas de partículas ocorrem naturalmente a todo o momento. Mais precisamente, a cada segundo, mais de 10 milhões de experimentos como os que são conduzidos no LHC, ou ainda mais potentes, acontecem pelo Universo. E nós ainda estamos por aqui.
Tais colisões são comuns porque incontáveis fenômenos astronômicos geram partículas aceleradas, ou as aceleram ainda mais, que saem assim vagando pelo espaço. São conhecidas como raios cósmicos, e uma das poucas certezas que você pode ter na vida é que aonde quer que vá, lá estarão os raios cósmicos para bombardeá-lo. Se o canhão de elétrons dos malignos cientistas não chega a atingi-lo diretamente, das radiações da natureza ninguém pode escapar – mesmo blindado a grandes profundidades, você ainda será atravessado pela radiação de neutrinos.
Ao longo do último bilhão de anos, aqui mesmo na Terra, raios cósmicos devem ter gerado ao redor de um milhão de colisões tão ou mais energéticas do que o LHC será capaz de produzir. E nós ainda estamos por aqui, naturalmente.
Todo esse temor pelo desconhecido, pela “ciência maluca” com seus “aceleradores de partículas” em experimentos inéditos na natureza, são assim infundados. O Grande Colisor de Hádrons não é uma aberração da natureza, nada do que faça deve ser realmente inédito ou mesmo tão incomum. A única diferença é que tudo será feito de maneira controlada, para compreender melhor o Universo em que vivemos.
Porém se a pessoa histérica perto de você ainda continuar espumando, faça o seguinte: tente substituir a fonte de seu medo. Pode funcionar.

WITH LASERS
Faça uma grande revelação: há um elemento muito mais insidioso em sua sala de estar e também em seu computador. Algo tão artificial que jamais foi visto ocorrendo naturalmente no Universo. Com vocês… o raio laser. Como o que está em todo leitor de CD e DVD, cria iluminação psicodélica em shows e é vendido em apontadores lasers a R$1,99.
Dispositivos laser produzem luz coerente, e se espera que hoje todos já tenham brincado com um apontador para conhecer suas propriedades. Tolos inconseqüentes! O que pensaram de “brincar de deus”? Porque nunca antes na história desse país, e de fato, de toda a humanidade, se havia visto luz espacialmente coerente antes que o laser fosse inventado em 1960. Algo hoje tão corriqueiro é em verdade uma “aberração da natureza”. Pergunte a qualquer físico.
Assim, se você encontrar um Profeta do Apocalhipce que argumente pela ignorância, nas linhas de “eu não sei como aquilo vai destruir o mundo, mas se é uma coisa jamais vista antes na natureza, então é perigoso!”…
Então depois de contar que o que os cientistas farão no LHC sim ocorre a todo momento naturalmente, apresente-lhe o raio laser, esse sim algo genuinamente artificial.
Afinal, como os cientistas podem garantir que esta geringonça que produz uma luz mágica capaz de cruzar grandes distâncias sem se dissipar não possa… sei lá, causar uma reação em cadeia através da desestabilização supersimétrica rebimbocal de elementos da parafuseta? A todo o momento, bilhões de lasers são ativados por todo o planeta, em bilhões de fenômenos físicos artificiais até onde sabemos inexistentes antes de serem criados pelo homem.
E os cientistas malignos ainda assim falharam em destruir o Universo. Devem usar produtos ACME.
Em nome da segurança da humanidade, confisque toda a coleção de CDs e DVDs da pessoa alarmada, assim como qualquer Playstation ou Xbox presente. Leve mesmo o computador junto, se não puder remover a unidade de DVD. Ou, dependendo, se ofereça para protegê-la ou fazer companhia toda vez que for assistir a um DVD. Afinal, nunca se sabe quando essa aberração chamada laser não irá provocar o colapso do Universo.
JÁ EVAPOROU HOJE?
Por fim, talvez você tenha lido sobre strangelets e mini-buracos negros em algum veículo de mídia provavelmente cumprindo seu dever (de aumentar sua circulação). Poderiam eles destruir o planeta? Poderiam. Poderia você subitamente evaporar, sem nenhum motivo aparente? Poderia. O que é mais provável? Que você evapore.
Cientistas não comentam muito, mas existe uma chance extremamente remota de que você subitamente suma de onde está e apareça instantaneamente do outro lado da parede. O efeito tem até um nome, o de tunelamento, e ocorre corriqueiramente em escala subatômica. Nada impede que ocorra em objetos muito maiores como você, exceto apenas sua extrema improbabilidade. Que ainda é mais provável do que o Apocalhipce.
Você vê, esses são temores puramente teóricos. Nunca se observou uma pessoa atravessando paredes ou evaporando espontaneamente. Nunca se observou um strangelet, nem mesmo um mini-buraco negro. Mesmo as teorias que os consideram indicam fortemente que nada disso deva realmente acontecer no LHC. Em verdade, a possibilidade de que você evapore subitamente não só é maior, como possui maior embasamento experimental do que strangelets e mini-buracos negros estáveis.
O que leva alguém a acreditar nos cientistas na hora de temer que o mundo acabe de acordo com uma de suas teorias mais especulativas, mas não confiar neles quando esclarecem que suas teorias não dizem realmente nada disto?
É, outra vez, a ignorância e a irracionalidade, exploradas de forma irresponsável por oportunistas. O LHC não matou ninguém com suas partículas, e nem deve matar.
Mas a exploração do irracional já teria levado uma menina indiana a se suicidar por medo do fim do mundo. De certa forma, foi sim um acelerador de partículas que deve tê-la impulsionado ao suicídio. Aquele dentro de sua TV, usada como veículo para a disseminação de estupidez.
Já dizia Isaac Asimov que “se o conhecimento pode causar problemas, não é através da ignorância que iremos solucioná-los”. Em um dos maiores empreendimentos científicos da história humana em busca de conhecimento, não há nada a temer além de nossa própria ignorância e irracionalidade.
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Referências:
- The safety of the LHC <http://public.web.cern.ch/Public/en/LHC/Safety-en.html>
Acalmou suas preocupações sobre o LHC? Não? Quer saber mais sobre o que ele deve descobrir, se vale mesmo a pena, ou mesmo um aviso em tempo real de quando o mundo acabar? Afinal, o que são esses Hádrons? Se os bósons de Higgs são a “partícula de Deus”, os cientistas então rezam para esse sujeito?
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