O Culto do Código Da Vinci 29 dez 2008 | por Kentaro Mori em Dúvida Razoável às 18:18
Um Olhar Crítico a O Código Da Vinci de Dan Brown
por Robert Sheaffer, publicado em Skeptic, Vol. 11, n.4
Por definição um romance é ficção. Mas Dan Brown diz em O Código Da Vinci que “Todas as descrições de arte, arquitetura, documentos e rituais secretos neste romance são acuradas”. Neste “romance factual”, Brown faz algumas afirmações extraordinárias que, se verdadeiras, não só revolucionariam toda a religião Cristã, mas muito da história também. Brown quer que acreditemos que as práticas do Cristianismo antigo eram completamente diferentes das que nos foram ensinadas, e que uma enorme conspiração nos impediu de saber sobre isto. Uma conspiração patriarcal de um famoso imperador romano obliterou a adoração dos primeiros cristãos do “sagrado feminino”. Jesus e Maria Madalena foram casados e geraram uma linhagem real que continua até os dias de hoje. Uma sociedade secreta de alguns dos mais famosos cientistas e artistas da história tem se dedicado a preservar estes segredos antigos durante quase mil anos. No mínimo estas alegações subverteriam mais de um século de pesquisa diligente por estudiosos sérios das mais respeitadas universidades no mundo. Se houve alguma reivindicação histórica extraordinária que exigisse prova histórica extraordinária, este é o maior exemplo.
Quão boa é a prova que Brown apresenta?
Os Primeiros Registros Cristãos?
A principal alegação a apoiar a radical revisão histórica de Brown é encontrada nas declarações de um personagem no romance, Leigh Teabing, que é investigador do Graal e acadêmico: “Estas são fotocópias do Nag Hammadi e dos manuscritos do Mar de Morto, que eu mencionei antes”, Teabing anuncia, “[eles são] os primeiros registros Cristãos” (245). Isto é espetacularmente falso. Os pergaminhos do Mar Mortos são realmente documentos históricos de significação quase inigualada. Porém, eles não nos dão nenhum conhecimento direto sobre o Cristianismo antigo. Enquanto os pergaminhos do Mar Morto certamente adicionam muito ao nosso conhecimento do Judaísmo durante o período histórico no qual o Cristianismo começou e se disseminou, eles sequer mencionam Jesus de Nazaré ou quaisquer dos seus seguidores, ou até mesmo o movimento que chegou a ser conhecido como Cristianismo. Assim, que Brown injete os manuscritos do Mar Morto como documentos de referência que supostamente destroem nossa compreensão do Cristianismo antigo é absurdo.
Quais são os textos cristãos mais antigos preservados até hoje? Se você quiser lê-los, os encontrará no Novo Testamento. Estudiosos acreditam que a epístola de Paulo, agora conhecida como Tessalonicenses 1, foi escrita durante sua segunda viagem evangélica, ao redor do ano 51. Isso faria dele o mais antigo dos documentos cristãos preservados. Gálatas foi escrito provavelmente durante a terceira viagem evangélica de Paulo, ao redor de 54-58. O Livro de Atos parece ter sido completado antes do ano 61, embora algumas porções dele pareçam ser ainda mais antigas e alguma edição possa ter acontecido alguns anos depois.[1] O Evangelho de Marcos é inquestionavelmente o evangelho sobrevivente mais antigo. É normalmente datado ao redor do ano 70. Mateus é posterior a Marcos, mas foi composto antes do ano 100. O Evangelho de Lucas foi composto ao redor do ano 100. João foi escrito alguns anos depois, mas antes de 120. Há alguma discussão sobre estas datas, mas os estudiosos do Novo Testamento os aceitariam como sendo razoavelmente próximas.
Quanto aos textos de Nag Hammadi, alguns dos quais são inquestionavelmente documentos do cristianismo antigo previamente desconhecidos, quando eles foram escritos? O renomado estudioso bíblico James M. Robinson, que liderou o projeto para estudar e traduzir estes achados arqueológicos inestimáveis, escreve que embora uma data exata não tenha sido determinada, “foram propostas datas que variam pelo menos desde o princípio ao fim do quarto século DC”. Um texto de Nag Hammadi faz referência à “heresia” Ariana, que floresceu brevemente na Alexandria ao redor do ano 360. Alguns documentos diversos ligados aos Códices Nag Hammadi podem ser datados aos anos 333, 341, 346 e 348.[2] Assim, a biblioteca Nag Hammadi física é inquestionavelmente do século IV, e pelo menos alguns de seus textos são tão recentes quanto tal.
É certamente possível que embora nossa cópia (a única cópia preservada) dos textos de Nag Hammadi seja relativamente posterior, os trabalhos em si possam ter sido compostos muito mais cedo. E realmente este parece ser o caso. Porém não é nem de longe o bastante para salvar Brown de sua trapalhada. Ele ressalta muito o evangelho de Felipe, que realmente descreve Jesus beijando Maria Madalena na boca (246). Mas a introdução desse livro na Biblioteca de Nag Hammadi em inglês declara que foi “provavelmente escrito na Síria na segunda metade do terceiro século DC”. Em outras palavras, foi composto entre aproximadamente 250 e 300, tornando-o pelo menos 150 anos posterior aos evangelhos canônicos. Como tal, não pode ser de forma alguma considerado uma fonte histórica primária comparável com os textos canônicos.
Brown também cita do Evangelho de Maria [Madalena] (247), que traz a sugestão de que Jesus “a amou mais que a nós”. De acordo com a introdução da Biblioteca de Nag Hammadi para o Evangelho de Maria, “Embora a data de composição seja desconhecida, o próprio manuscrito cóptico foi datado ao início século cinco, e um fragmento grego deste evangelho ao início do século três”. Não há nenhum fundamento para atribuir a este trabalho uma data de composição anterior.
Portanto, que Brown apresente textos dos séculos II e III como mais antigos e definitivos que textos canônicos do século I é de dar risada. Os evangelhos e epístolas canônicos do Novo Testamento são trabalhos de meados ao fim do primeiro século, ou no mais tardar do início do século II. No entanto Brown afirma com segurança que os livros do Novo Testamento são posteriores aos textos gnósticos de Nag Hammadi. Em assuntos de análise histórica, não é possível estar mais errado que isto.
O Sangue de Cristo e o Santo Graal
A peça central da tese de Brown é a alegação de que Jesus e Maria Madalena foram casados e geraram uma linhagem real que sobrevive em segredo até os dias de hoje. Esta especulação selvagem foi explorada inicialmente no livro de 1982, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln. A versão de Brown da história é essencialmente igual à deles, e os autores de SCSG notam que o “Leigh Teabing” de Brown é composto do sobrenome de um dos três autores, mais um anagrama do de outro. A tese de Brown é de fato tão similar que Baigent e Leigh estão processando Brown por 140 milhões de libras, reivindicando que foram plagiadas a premissa do romance e extensas partes de pesquisa factual de seu livro, que vendeu mais de dois milhões de cópias apesar de ser denunciado por vários comentaristas da Igreja como “pseudo-história”. Baigent disse: “Se nossa hipótese está certa ou errada é irrelevante. O fato é que este é um trabalho que nós organizamos e que levamos vários anos construindo”. Ele inclui a linhagem real de Jesus-Maria sendo protegida por sociedades esotéricas tais como os Cavaleiros Templários e o Priorado de Sião, dos quais um dos “Grão Mestres” se alega ter sido Leonardo da Vinci.[3] Um segundo processo alegando plágio foi lançado contra Brown pelo autor Lewis Perdue, que diz que material de enredo foi tomado de dois de seus livros: The Da Vinci Legacy e Daughter of God.[4] Se Brown plagiou ou não a idéia, porém, é irrelevante com relação à sua veracidade. (Para uma fonte rica de material desmentindo Sangue de Cristo, Santo Graal, veja o artigo de Wikipedia a respeito).[5] Que prova há de que qualquer parte disto seja historicamente válida? Muito pouca. Nós começamos com o Priorado de Sião.
O Priorado de Sião
Brown escreve: “O Priorado de Sião — uma sociedade secreta européia fundada em 1099 — é uma organização real. Em 1975 a Bibliotheque Nationale de Paris descobriu pergaminhos conhecidos como Les Dossiers Secretes identificando inúmeros membros do Priorado de Sião, incluindo Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci”.
Esta alegação é tomada diretamente de Sangue de Cristo, Santo Graal, que declara no capítulo 5, “De acordo com o texto, a Ordre de Sion foi fundada por Godfroi de Bouillon em 1090, nove anos antes da conquista de Jerusalém — embora haja outros ‘documentos Prieure’ que datem a fundação a 1099”. Isto seria muito impressionante, se fosse verdade. De acordo com Brown, o propósito do Priorado é zelar pelo suposto segredo do Santo Graal, proteger a linhagem de Jesus e Maria e preservar o conhecimento do “sagrado feminino” supostamente praticado no início do Cristianismo (mas aniquilado pelo Imperador Constantino e seus capangas patriarcais). Em Sangue de Cristo, Santo Graal, é praticamente o mesmo, exceto que o ângulo feminista/deusa do “sagrado feminino”, que ficou proeminente em escritos feministas durante fim dos anos 1980, está ausente porque ainda não havia sido popularizado.
A história factual do Priorado de Sião é delineada em grande detalhe no sítio da web www.priory-of-sion.com. A “ordem” supostamente antiga foi fundada na realidade em 1956 por Pierre Plantard (1920–2000), um vigarista francês anti-maçônico e anti-semita que estava freqüentemente em dificuldades com a lei. Depois da invasão nazista da França, ele foi tão longe a ponto de em dezembro de 1940 escrever uma carta ao Marechal de Campo Petain, chefe do governo fantoche apoiado pelos nazistas em Vichy, advertindo a respeito de conspirações judeu-maçônicas. Em 1953 Plantard começou a servir uma sentença de prisão de seis meses por apropriação indevida de propriedade, e em 1956 começou a cumprir uma pena de 12 meses por “détournement de mineurs” (corromper ou possivelmente “seqüestrar” um ou mais menores).
Em Sangue de Cristo, Santo Graal aprendemos que, de acordo com Les Dossiers Secretes, a linhagem Real Merovíngia do Priorado se estende até mesmo antes da Guerra de Tróia indo até os patriarcas do Antigo Testamento. Quanta credibilidade estes supostos documentos realmente possuem? Eles foram realmente encontrados nos arquivos nacionais franceses? Tecnicamente, sim, eles foram achados nos arquivos no começo da década de 1960. Porém, não há nenhum registro deles terem sido apropriadamente inseridos ou registrados lá. Os documentos parecem ter sido plantados de forma que pudessem ser encontrados lá, mas sem registro dentro dos arquivos em si mesmo, não há nenhum modo pelo qual possam ser considerados válidos. Assim, de onde Les Dossiers Secretes vieram? Nós descobrimos toda a história quando Plantard e seu co-autor Gérard de Sède tiveram um desentendimento. Como explicado em www.priory-of-sion.com:
Os “pergaminhos” em particular foram criados por Philippe de Chérisey e o contrato do livro para L’Or de Rennes [O Ouro de Rennes(-le-Chateau)] revela que ele estava intitulado a uma parte dos lucros do livro por produzir os “pergaminhos”. Uma cisão entre os três aconteceu em 1967 quando Gérard de Sède se recusou a dividir os royalties do livro e Plantard e Chérisey declararam que os “pergaminhos” (a principal atração do livro e seu principal mote de venda) eram falsificações.[6]
Em resumo, o “Priorado de Sião” não tem nada a ver com a organização dos cruzados medievais.
A Conspiração de Constantino
Outra reivindicação notável em O Código Da Vinci é que “a Bíblia, como nós a conhecemos hoje, foi uma colagem feita pelo Imperador Romano pagão Constantino, o Grande” (231). Ou como o personagem de Brown, Robert Langdon, explica a Sophie: “O Priorado acredita que Constantino e seus sucessores masculinos converteram com sucesso o mundo do paganismo matriarcal para o Cristianismo patriarcal, empreendendo uma campanha de propaganda que demonizou o feminino sagrado, obliterando a deusa da religião moderna para sempre” (124).
Note como esta passagem insinua que a religião politeística greco-romana havia sido alegremente matriarcal e adoradora de uma “deusa” até que Constantino conspirou para mudá-la. Esta alegação vai de encontro a tudo o que nós sabemos sobre as práticas religiosas do mundo antigo. Júpiter (ou Zeus) era o Rei dos Deuses, o governante do mundo e estava firmemente no comando. Enquanto tanto deuses como deusas eram adorados, não há absolutamente nenhum texto romano ou grego que sugira qualquer coisa remotamente semelhante a um “matriarcado”; os deuses masculinos eram claramente dominantes. Por exemplo, A Ilíada, com sua crônica das maquinações de deuses e deusas, é extremamente bélico e está claramente dedicado a assuntos masculinos, como coragem na batalha. Mulheres são prêmios a ser ganhos na batalha. Nada na Ilíada sugere “o sagrado feminino”. Brown roubou esta idéia diretamente de Sangue de Cristo, Santo Graal:
Em 303 DC, um quarto de um século antes, o imperador pagão Diocleciano havia se dedicado a destruir todos os manuscritos cristãos que podiam ser encontrados. Desta forma os documentos cristãos —especialmente em Roma— simplesmente desapareceram. Quando Constantino comissionou novas versões destes documentos, permitiu que os guardiões da ortodoxia revisassem, editassem e reescrevessem seu material como lhes pareceu conveniente, conforme sua doutrina. Foi neste momento que a maioria das alterações cruciais no Novo Testamento foram provavelmente feitas e Jesus assumiu o status único de que desfrutou desde então. A importância da comissão de Constantino não deve ser subestimada.[7]
Os autores de SCSG não citam nenhuma referência para suas alegações de revisão bíblica a atacado no século IV, sem dúvida porque nenhuma pode ser encontrada. No entanto a alegação por agora já tomou vida própria como uma lenda urbana moderna. Qual é a verdade histórica? O que os autores de SCSG e Brown fizeram é distorcer além de todo o reconhecimento um evento famoso na história da igreja —o Concílio de Nicéia de 325—que foi realmente organizado por Constantino em nome dos líderes da igreja. O Concílio foi convocado para solucionar várias disputas teológicas principais, nenhuma das quais envolvia Maria Madalena, matriarcado, feminismo, novo evangelhos ou, a propósito, Constantino.
A questão primária debatida no Concílio de Nicéia centrou-se ao redor do debate que nos deu a expressão em inglês “um iota de diferença”:
Homo Ousion (mesma substância) versus Homoi Ousion (substância similar): O ponto de contenção no Concílio de Nicéia era um conceito não encontrado em nenhuma parte na Bíblia: homoousion. De acordo com o conceito de homoousion, Cristo o Filho era consubstancial (compartilhava a mesma substância) com o Pai. Ário e Eusébio discordavam. Ário pensava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo eram materialmente separados uns dos outros e que o Pai havia criado o Filho.[8]
O Credo de Nicéia ainda recitado em muitas igrejas hoje é um resumo sucinto das doutrinas decididas neste conclave. Há um artigo acadêmico excelente sobe o Concílio de Nicéia na The Catholic Encyclopedia[9] que resume todas as intenções daquele concílio. O único papel desempenhado por Constantino foi urgir os bispos em disputa a se reunirem todos em um lugar, disponibilizar os recursos para isso acontecer e urgir que parassem de disputar.
O “estudioso do Graal” Leigh Teabing de Brown diz que “o estabelecimento de Jesus como ‘Filho de Deus’ foi proposto oficialmente e votado pelo Concílio de Nicéia” (233). Isto é altamente enganoso. Brown quer que você pense que antes do Concílio de Nicéia ninguém pensava em Jesus como divino e que tal doutrina foi estabelecida por uma votação do Concílio referido, “uma votação vencida por pouco, a propósito”. Em realidade a famosa votação do Concílio diz respeito a se Jesus era da “mesma substância” que o Pai ou se era de “substância similar”, com a primeira visão prevalecendo. Nenhum clérigo estava sugerindo que Jesus fosse meramente humano. O debate era sobre se Jesus o Filho estava de alguma forma subordinado ao Pai ou se era plenamente igual a ele. De acordo com Teabing, “estabelecer a divindade de Cristo era crítico à unificação adicional do Império Romano” (233). Isto é simplesmente absurdo. O Evangelho de João, escrito uns bons dois séculos antes do Concílio de Nicéia, tem Jesus dizendo coisas como (11:25): “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá”. Pondo de lado a questão de se Jesus disse mesmo estas coisas, isto demonstra que no início do século II os cristãos estavam adorando Jesus como a um ser divino que possuía poder sobre a vida e a morte.
E quanto à alegação de O Código Da Vinci e em Sangue de Cristo, Santo Graal de que Constantino “encomendou novas versões destes documentos”, efetivamente reescrevendo o Novo Testamento? Para dizer de forma curta e grossa, não há nenhuma evidência histórica para apoiar esta alegação, e muita para contestá-la. O imperador de fato ordenou que cópias novas da Bíblia fossem feitas (então um processo manual laborioso), mas eram para uso nas novas igrejas planejadas e eram idênticas aos textos da Bíblia já em existência. Muitos manuscritos e fragmentos do Novo Testamento que pré-datam o Concílio de Nicéia ainda existem, e o texto deles é igual às versões que conhecemos hoje.
Na Carta Festal de São Atanásio de 367, o Cânone do Novo Testamento aceito foi fixado e trabalhos não-aprovados declarados heréticos.[10] Note que o expurgo iniciado por Atanásio, que anteriormente havia participado do Concílio de Nicéia, consistiu em remover documentos mas não somar ou revisar. Os textos aprovados por Atanásio são os textos canônicos familiares de hoje, enquanto a maioria daqueles desaprovados ainda existem, mas são raramente lidos e tendem a ser de composição posterior. Isto parece ter sido o começo de uma grande expurgação de documentos “heréticos” por toda a igreja. Presumivelmente algum monge, ordenado a destruir os textos “heréticos” de Nag Hammadi, preferiu selá-los em jarros e enterrá-los. Os Apócrifos do Novo Testamento, os livros que Atanásio buscou proibir, estão amplamente disponíveis em tradução hoje.[11] Se qualquer um espera achar ritos matriarcais secretos neles, ficará muito desapontado.

Quem Era Maria Madalena?
A resposta convencional para esta pergunta é que Maria foi uma ex-prostituta que se arrependeu e se tornou uma seguidora de Jesus. Em nenhuma parte no Novo Testamento se diz que ela era uma prostituta, embora se diga que Jesus teria expulsado sete demônios dela (Lucas 8:2). Que ela era uma prostituta é uma tradição que começou no século VI com um sermão do Papa Gregório, o Grande. A resposta de Brown é que além de ser a esposa e confidente de Jesus e a mãe das crianças dele, Maria era a incorporação do Sagrado Feminino, o próprio Santo Graal (o Graal sendo uma metáfora para seu útero).
Há razões excelentes para duvidar da realidade histórica de todas estas interpretações. O nome “Madalena” pode ser derivado de uma descrição ao invés de um lugar, e em verdade essa mulher pode ter sido criada como um dispositivo literário para atrair injúria que do contrário seria dirigida à mãe de Jesus. Durante os frágeis primeiros dias do Cristianismo, uma acusação séria era freqüentemente feita por judeus descontentes contra a mãe de Jesus, Maria. O filósofo romano Celso escreveu um livro Sobre a Verdadeira Doutrina opondo-se ao Cristianismo (parcialmente preservado apenas no Contra Celsum, um trabalho do padre da igreja Origen opondo-se a Celso, todos esses escritos anti-cristãos antigos foram destruídos há muito). Nele Celso apresenta um “filósofo” acusando Jesus:
Não é verdadeiro, bom senhor, que você fabricou a história de seu nascimento de uma virgem para aquietar rumores sobre as verdadeiras e inconvenientes circunstâncias de suas origens? Não é o caso de que longe de nascer na cidade Real de Davi, Belém, você nasceu em uma cidade rural pobre e de uma mulher que ganhava a vida girando? Não é o caso que quando a enganação dela foi descoberta, para conhecimento, que ela estava grávida de um soldado romano chamado Pantera, ela foi expulsa pelo seu marido —o carpinteiro— e condenada por adultério? De fato não é verdade que em sua desgraça, vagando longe de casa, ela deu luz a uma criança masculina em silêncio e humilhação?[12]
Para o leitor moderno que só ouviu os relatos cristãos do nascimento de Jesus esta acusação deve parecer chocante, uma blasfêmia e um absurdo; no entanto há evidência nos textos antigos cristãos e judaicos para sugerir que a acusação de Celso é plausível. Isto é discutido em extensão em meu livro A Fabricação do Messias.[13]
O que isto tem a ver com Maria Madalena? O estudioso bíblico R. Joseph Hoffman da Wells College em Nova Iorque notou que quando os judeus se referiam à mãe de Jesus (Miriam em hebreu) como a “penteadeira dos cabelos de mulheres”, a frase hebraica é Miriam, m’qadella nashaia.[14] Desta forma, os primeiros cristãos e os que ainda iriam ser cristãos ouviram de judeus falarem muito a respeito de Miriam, m’qadella, que se dizia ser uma prostituta. Eles estavam falando, é claro, sobre a mãe de Jesus. É possível que os evangelistas cristãos, percebendo que essa conversa não iria acabar tão cedo, tenham inventado um novo personagem cujo nome—não a ocupação—fosse Miriam m’qadella, e que tivesse sido uma prostituta. Desse modo poderiam dizer que todas as coisas terríveis que eram ditas sobre Miriam m’qadella se referiam a esta outra mulher, antigamente desonrosa, e não à mãe de Jesus. Realmente, é possível que todas as muitas Marias dos evangelhos sejam em verdade a mesma mulher. João inexplicável e repetidamente se recusa a nomear a mãe de Jesus, mas fala de “Maria, a esposa de Cleofas”, de quem os dois filhos por coincidência têm os mesmos nomes dos irmãos de Jesus como enumerados em Marcos.
Um Matriarcado Cristão Antigo provado nos Textos de Nag Hammadi? De acordo com Brown, antes de Constantino e seus capangas reescreverem a Bíblia para torná-la patriarcal, “Jesus era o feminista original” (248). O Cristianismo adorava o “sagrado feminino” da “deusa perdida”, baseado no princípio supostamente antigo do “Cálice e da Lâmina” (237–8). Na verdade, O Cálice e a Lâmina é o título de um livro de 1987 da feminista Riane Eisler promovendo alegações especulativas de que a antiga Creta era supostamente “não-patriarcal”. E Eisler fundamentou sua tese, em grande parte, nas interpretações da falecida arqueóloga Marija Gimbutas, que no início de sua carreira construiu uma excelente reputação profissional, mas depois vagou por interpretações feministas extremas de “deusas” em desenhos e ícones antigos que foram rejeitadas quase universalmente pelos seus colegas. Na introdução para seu livro, Eisler explica o simbolismo de “gênero-holístico” do “Cálice e Lâmina”, o qual ela inventou junto com Gimbutas.[15] Assim não há nenhum modo pelo qual qualquer sociedade secreta antiga poderia ter usado o simbolismo do “cálice e lâmina”, porque esse simbolismo não existia antes de 1987.
Vários livros populares convenceram muitos de que a descoberta dos textos de Nag Hammadi provam a existência de uma versão com orientação mais feminista do Cristianismo Gnóstico antigo. O mais proeminente deles é Os Evangelhos Gnósticos de Elaine Pagels, uma estudiosa que de fato trabalhou no Projeto Nag Hammadi.[16] O livro de Pagels não é um trabalho explicitamente feminista, e contém muita informação valiosa sobre os textos de Nag Hammadi. Ela sugere que Maria Madalena foi inserida em alguns textos gnósticos como uma “figura” literária para ilustrar o conflito entre aqueles que queriam ampliar o papel das mulheres dentro da igreja contra aqueles que queriam restringi-lo, uma sugestão que faz muito sentido. Ela adverte a respeito de tomar estes evangelhos posteriores como tendo muito conteúdo histórico: “Os antagonistas em ambos os lados recorreram à técnica polêmica de escrever literatura que supostamente derivava de tempos apostólicos, professando fornecer as visões originais dos apóstolos sobre os assuntos”. Em outras palavras, muitos dos textos não-canônicos cristãos, gnósticos ou não, foram escritos por zelotes religiosos para demonstrar que “os apóstolos concordavam comigo”.
Muitos feministas citams Os Evangelhos Gnóstico para apoiar as alegações de que os gnósticos eram antigos feministas, uma reivindicação que em verdade não é embasada pelo texto do livro. Pagels escreve que “os gnósticos não eram unânimes em afirmar as mulheres—nem os ortodoxos eram unânimes em denegri-las. Certos textos gnósticos inegavelmente falam do feminino em termos de desprezo”. Porém, ela sim sugere que, no saldo final, as mulheres estavam um pouco melhor na Igreja Gnóstica do que na ortodoxa. Depois, escrevendo em outros meios populares, Pagels adotou uma forte posição feminista, alegando que o feminismo gnóstico teria sido “suprimido”.
Quão “feministas” os gnósticos realmente eram é difícil de concluir com certeza, e a conclusão de cada um dependerá de quais textos escolhe para se concentrar em e quais resolve ignorar. Em vários trabalhos gnósticos, Deus o Pai é elogiado e celebrado como “muito másculo”,[17] o que dificilmente agradará a feministas. No Diálogo Gnóstico do Salvador, Jesus dirige seus discípulos para “Rezar no lugar aonde não há nenhuma mulher” e urge que “os trabalhos da feminilidade” sejam destruídos.[18] A Sofia [Sabedoria] Gnóstica de Jesus Cristo diz “Estes são todos perfeitos e bons. Por estes o defeito foi revelado na fêmea”.[19] E o mais claro de todos, no Evangelho Gnóstico de Tomás, Simão Pedro diz, “Permita que Maria nos deixe, já que mulheres não são merecedoras da Vida”. Jesus responde, “Eu mesmo a guiarei para torná-la masculina, de forma que ela também possa se tornar um espírito vivo que se assemelhe a vocês homens. Uma vez que toda mulher que se torne masculina entrará para o Reino dos Céus”.[20] É óbvio que qualquer interpretação do movimento gnóstico como proto-feminista requer uma leitura extremamente seletiva de seus textos.
Os historiadores profissionais e arqueólogos rejeitam quase universalmente reivindicações feministas de culturas antigas feministas/adoradoras de deusas no mediterrâneo ou em outros lugares. (Veja Goddess Unmasked de Philip G. Davis para uma excelente avaliação da pouca fundação acadêmica na qual estudiosos feministas construíram tais alegações).[21] Todas as sociedades humanas conhecidas, no passado e no presente, são “patriarcais” no sentido em que a liderança formal tanto na sociedade como em casa é predominantemente associada ao homem. As aulas de “Estudos sobre o Feminino” alegam haver muitas exceções, mas essas não sobrevivem a um escrutínio crítico.[22] Isto não significa que nenhuma líder exista, nem nega que as mulheres tenham freqüentemente poder informal enorme não considerado por medidas formais.

Mickey Mouse e o Santo Graal
A maioria das pessoas racionais concluirá que um livro não é nada sério quando lêem uma passagem como a seguinte de O Código Da Vinci:
Langdon elevou seu relógio do Mickey Mouse e disse a ela que Walt Disney tinha tomado como a missão de sua vida transmitir a história do Graal para as gerações futuras. Ao longo de toda sua vida, Disney foi saudado como “o Leonardo Da Vinci dos Tempos Modernos”. Ambos os homens estavam gerações à frente de sua era, artistas particularmente talentosos, membros de sociedades secretas e, notavelmente, ávidos brincalhões. Como Leonardo, Walt Disney adorava infundir mensagens e simbolismo secretos em sua arte. (261)
Diz-se que a evidência do envolvimento de Disney com o Graal e o “sagrado feminino” é encontrada em Cinderela, Bela Adormecida, Branca de Neve e especialmente em A Pequena Sereia. Realmente é possível que Brown tenha incluído este trecho como uma advertência para que o leitor não tomasse nada neste livro a sério. Mas nesse caso, ele o fez de forma tão cifrada e opaca —um reductio ad absurdum—que quase ninguém conseguiu decodificá-lo. Esta suposição é fortalecida pelo subseqüente pronunciamento solene de que a Era de Aquário está a ponto de alvorecer (268), como se isto fosse que um desenvolvimento recém decodificado de uma conspiração, ao invés de uma expressão popular tola e muito usada há uma geração.
Uma pessoa racional pode apreciar ler trabalhos de ficção ou ficção científica, e até mesmo ficção bem fantasiosa como O Código Da Vinci, sem preocupar excessivamente sobre absurdos óbvios na história. Mas um problema surge quando um trabalho de ficção alega explicitamente ser mais que um trabalho de ficção, quando ressona com mais desinformação difundida pela cultura e quando 25 milhões de leitores são enganados por suas afirmações especiosas. Os supostos “fatos” em O Código Da Vinci não possuem maior credibilidade que aquelas em Sangue de Cristo, Santo Graal dos quais foram tomados. Se você pensa em si mesmo como um cético, fará bem em perceber que muito pouco fato está misturado com a ficção de Brown.
- – -
Copyright © 1992–2008 Skeptic e seus colaboradores. Permissão é concedida para imprimir, distribuir e publicar com citação e reconhecimento apropriados. Tradução por Kentaro Mori, “Sedentário&Hiperativo”.
Referências & Notas
1. Carrington, Philip. 1957. The Early Christian Church. Cambridge: Cambridge University Press, xiii–xiv.
2. Nag Hammadi Library, 15–16.
3. Ver The Telegraph, 10 Mar. 2004. http://www.telegraph.co.uk/news/main.jhtml?xml=/news/2004/10/03/wvinci03.xml&sSheet=/ news/2004/10/03/ixnewstop.html
4. “Da Vinci author is hit by fresh plagiarism claim,” Edinburgh Evening News, 12 Jan. 2005. http://edinburghnews.scotsman.com/uk.cfm?id=42132005
5. Wikipedia, the Free Encyclopedia: Holy Blood, Holy Grail. http://en.wikipedia.org/wiki/Holy_Blood,_Holy_Grail
6. Ver http://priory-of-sion.com/psp/id84.html . Também http://www.cesnur.org/2005/mi_02_03d.htm
7. Holy Blood, Holy Grail, 368.
8. “Arian Heresy,” Ancient History, About.com
9. “The Catholic Encyclopedia: The First Council of Nicaea.” http://www.newadvent.org/cathen/11044a.htm
10. Para uma excelente explicação, ver Athanasius of Alexandria em The Development of the Canon of the New Testament.
11. Ver Schneemelcher, Wilhelm, ed. 1989. New Testament Apocrypha, 6th edition. 2 Vols. Louisville: Westminster/John Knox Press, and Robinson, James M., ed. 1981. The Nag Hammadi Library in English. New York: Harper & Row.
12. Celsus. 1987. On the True Doctrine. (ed., trans. R. Joseph Hoffmann.) New York: Oxford University Press, 19. Ver também Origen, Contra Celsum 1:28.
13. Sheaffer, Robert. The Making of the Messiah (Buffalo, New York: Prometheus Books, 1991). Ver capítulo 4.
14. Hoffmann, R. Joseph. 1984. Jesus Outside the Gospels. Buffalo, New York: Prometheus Books, 41–42. “The floating tradition concerning the woman taken in adultery (John 7:53–8:11), se parte da tradição de Maria, pode indicar um stratum anterior onde Maria a mãe de Jesus e Maria de Magdala eram uma e a mesma. Em todo caso, a tradição do evangelho sobre a segunda Maria pode ter emergido como um corretivo para a história de que a mão de Jesus era uma adúltera. “Sobre as duas Marias”, Hoffmann nota, “mesmo os Evangelhos oferecem relatos confusas”.
15. Eisler, Riane. 1987. The Chalice and the Blade. New York: Harper Collins, xvii.
16. Pagels, Elaine. 1979. The Gnostic Gospels. New York: Random House. Ver capítulo 3.
17. Nag Hammadi Library in English, 64,375,446.
18. Nag Hammadi Library in English, 237–8.
19. Nag Hammadi Library in English, 221.
20. Nag Hammadi Library in English, 130.
21. Davis, Philip G. 1998. Goddess Unmasked. Dallas: Spence Publishing.
22. Goldberg, Steven. 1993. Why Men Rule. Chicago: Open Court.
- – - – - -
Notas do tradutor: Com a exibição do filme “O Código Da Vinci” na TV aberta, e prevendo muitos curiosos sobre A Terrível Verdade sobre Jesus, pensei que traduzir e publicar este excelente artigo de referência de Sheaffer seria o mais efetivo. Como a pesquisa não é minha e eu só pude verificar parte das referências, sintam-se mais do que livres para enviar qualquer crítica e correção.
Além de apenas traduzir o artigo e deixar tudo em suas mãos, caros leitores, minha preguiça chegou ao ponto de que ao invés de comentá-lo em detalhe, conversei com o Marcelo Del Debbio, que gentilmente escreveu esses parágrafos para partilhar por aqui:
“O texto é razoável, mas não foge do óbvio que já foi colocado em diversos fóruns e listas de discussão a respeito do tema. O Código DaVinci é uma FICÇÃO baseada em fatos históricos e idéias que a Igreja não aprova, e não uma tese de dissertação em História. Como recurso narrativo, Dan Brown compactou e ajustou cerca de 600 anos de Cristianismo para caber em um único discurso de 10 minutos do Gandalf… é óbvio que ele precisou fazer várias adaptações para criar o clima de perseguição aos locais certos nos tempos certos da narrativa. Boa parte dos americanos já não tinha entendido direito a história das taças e dos concílios da maneira como ficou no livro/filme, que dirá se o autor fosse esmiuçar cada um dos seis concílios que existiram entre o primeiro concílio de Nicéia (325, onde se discutiu basicamente a doutrina de Ário e que textos fariam parte da bíblia “oficial”) e o segundo concílio de Nicéia (787, onde se decidiu pela supressão da veneração de imagens). Maria Madalena só se torna a Prostituta a partir da expansão de seu culto como Madonna Negra no sul da França, por volta do século VII, no famoso discurso do papa Gregório. Vale lembrar que o filme “A Última tentação de Cristo” já tratava do assunto Maria Madalena em 1988. Só discordo da frase “Enquanto tanto deuses como deusas eram adorados, não há absolutamente nenhum texto romano ou grego que sugira qualquer coisa remotamente semelhante a um “matriarcado”; os deuses masculinos eram claramente dominantes”. Haviam diversos cultos femininos na Grécia e Roma, em especial os que realmente incomodavam a Igreja e que foram diretamente atacados por estas decisões de Roma, que são os cultos às Bacantes (de onde vem o nome de seus ritos: bacanais… bacanais e Igreja católica nunca combinaram). Além disso, existia também na Grécia o culto à deusa da caça Ártemis (Diana), Atenas, deusa da guerra, e de toda a narrativa envolvendo as Amazonas, terríveis guerreiras. Também haviam templos dedicados a Afrodite/Vênus e seus cultos iniciáticos de prostituição sagrada e os templos erguidos em homenagem a Hera, esposa de Zeus. A Civilização Greco-romana, como um todo, não era matriarcal, mas a presença de cultos ao sagrado feminino era um fato que com certeza desagradava ao cristianismo”.
De fato, Sheaffer reconhece que deusas eram adoradas, mas enfatiza que não há evidência de que qualquer sociedade humana tenha sido matriarcal, muito menos que algum “sagrado feminino” tenha sido praticado como qualquer coisa próxima ao que Dan Brown alega em sua ficção pseudo-factual. Que atingiu milhões de pessoas, rendendo-lhe milhões de dólares. Praticamente não há nenhum fato histórico em O Código Da Vinci, há sim, como demonstrado, muita manipulação de dados e eventos.
Aqui, acredito que seja bom alertar, o que imagino que muitos leitores já saibam, que eu não sou católico. Sou ateu, e já fui budista. Assim, não tenho nenhuma tendenciosidade a favor do catolicismo. Por isso, não se preocupem: procurarei criticar de forma equânime a todos os credos e crenças que se baseiem em falsidades, mentiras e manipulações, bem como buscarei defender tudo aquilo que a evidência objetiva aponte ser verdadeiro. No caso, a Igreja Católica Apostólica Romana tem toda a razão em denunciar a obra de Dan Brown como simplesmente um “amontoado de mentiras”. Já as eventuais mentiras da ICAR, estas ficam para outra coluna.
Dúvida Razoável irá questionar os supostos milagres católicos, as materializações espíritas, os super-faquires indianos, xamãs e toda alegação de supostos religiosos espiritualistas que teimam em querer validar sua fé distorcendo e mesmo fraudando provas materiais. Esses são o pior tipo de “materialistas”.
FNORD













Pingback: O Culto do Código Da Vinci | CeticismoAberto notícias
Pingback: O Culto do Código Da Vinci | 100nexos
Pingback: O Culto do Código Da Vinci : cristianismo
Pingback: Vale o Clique (21) - Mega Balaio
Pingback: Retrospectiva Insólita 2008… Feliz 2009! | CeticismoAberto notícias