Projetos Secretos: “Por que construir um quando você pode construir dez?”

10 jun 2012 | por em Dúvida Razoável às 16:52

Na semana passada, uma das maiores e mais discretas agências do governo dos EUA — que operou por mais de três décadas sem ter mesmo sua existência reconhecida oficialmente — deu um presente de grego à mais conhecida agência do governo americano.

A discreta agência é o NRO — o Escritório de Reconhecimento Nacional — e o presente foram nada menos que dois telescópios espaciais doados à NASA. Cada um destes telescópios é maior e mais sofisticado que uma das jóias mais valiosas da agência espacial, o telescópio espacial Hubble. Enquanto a agência civil luta com um orçamento reduzido para manter programas de observação e exploração, a agência militar subordinada ao Departamento de Defesa americano com um orçamento “negro” em grande parte secreto lhe dá dois telescópios espaciais ainda mais potentes de presente. E em meio a isso tudo, tanto o NRO quanto a NASA tratam a notícia com o menor alarde possível.

A história parece surreal, e lembra uma reviravolta tida como um furo inverossímil do romance e filme “Contato” de Carl Sagan. A realidade é ainda mais absurda, Carl Sagan a conhecia e você também descobrirá um pouco do que não querem que você saiba na continuação.

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Macacos

O telescópio Hubble foi lançado logo após o fim da Guerra Fria, em 1990, o período único na história humana que levou a corridas tecnológicas absurdas, incluindo aí o avião supersônico Concorde, em uma espécie de dilema do prisioneiro em escala global. No caminho, demos um salto gigantesco ao pisarmos na Lua, mas ao custo de deixar de lado visões e projetos mais grandiosos e racionais de conquista e exploração espacial. No penúltimo texto desta série original em 100nexos, comentamos por fim como “a humanidade não merece ir à Lua. Ciência e tecnologia nos oferecem o Universo infinito, mas como macacos nos preocupa muito mais o que outros macacos andam fazendo. Acabamos todos prisioneiros do poço gravitacional terrestre”.

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O telescópio Hubble ainda é uma demonstração desta triste constatação, não por si mesmo, mas por um detalhe pouco conhecido. O diagrama que você vê acima não é um projeto do instrumento astronômico que contribuiu tanto para a ciência e tornou-se sinônimo de fonte para algumas das imagens mais profundas, incluindo literalmente a imagem mais profunda do Universo já capturada. O diagrama acima é uma concepção do que se acredita ser a série de satélites espiões Keyhole KH-11 classe Kennan. Um total de nove satélites da classe KH-11 foram lançados entre 1976 e 1988, e eles eram praticamente idênticos ao telescópio espacial Hubble.

Ou melhor, se você se lembrar de que o Hubble foi lançado em 1990, o inverso é verdade: um dos mais conhecidos instrumentos científicos da história recente é basicamente uma versão civil de um projeto militar. Até mesmo o tamanho do espelho refletor do Hubble foi determinado pelo tamanho exato dos espelhos usados inicialmente nos satélites espiões. Uma das únicas diferenças é que enquanto os satélites militares espionavam a Terra, mirando mísseis nucleares, bases militares e conflitos pelo mundo, o Hubble passou a mirar… o céu.

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Há um trecho no romance “Contato” de Carl Sagan onde, e aqui estrago algo das surpresas da história, com a destruição de uma Máquina ao custo de bilhões de dólares, descobre-se em uma reviravolta considerada por muitos inverossímil que uma segunda Máquina havia sido construída secretamente. “Por que construir uma quando você pode ter duas pelo dobro do preço”, brinca o personagem Sol Hadden na versão cinematográfica.

A realidade é ainda mais absurda: considerando que o telescópio Hubble custou em torno de U$2,5 bilhões, contando em verdade com tecnologias já desenvolvidas para os satélites espiões secretos, pode-se ter uma vaga ideia do custo do programa Keyhole ao desenvolver e lançar nada menos que nove satélites equivalentes. No mais completo segredo.

A recente doação do NRO à NASA apenas expõe a situação de forma um tanto mais clara e inequívoca, enquanto ambas agências tentam dar o menor destaque possível à notícia. Os dois valiosos telescópios estão sendo doados porque, grosso modo, estão simplesmente sobrando. Suas partes principais, incluindo espelhos refletores, foram construídas há mais de dez anos e têm sido armazenadas desde então. Não se sabe ao certo se fazem parte da série de satélites espiões Keyhole, embora esta seja a opinião mais provável – dada sua similaridade com o Hubble, ou como vimos, dado como o inverso é verdadeiro.

Esta doação vinda de uma “sobra” também deve estar relacionada com “o que talvez seja a falha mais cara e espetacular da história de 50 anos de projetos de satélites espiões americanos”. Há mais de uma década o Departamento de Defesa buscou desenvolver uma nova geração de satélites espiões com tecnologias revolucionárias, mas depois de consumir o que se estima em mais de U$25 bilhões de dólares, o projeto foi cancelado em 2005. O custo é dez vezes superior ao do telescópio espacial Hubble. e foi um fracasso.

E o programa de satélites espiões americanos não parou aí, como não começou aí. Enquanto astrônomos lutam por frações do tempo de observação do Hubble há vinte anos, com descobertas que alteraram nosso conhecimento da origem e futuro do Universo e tantos outros conhecimentos esperando para serem desvendados, satélites ainda mais potentes, com espelhos refletores ainda maiores, estão disponíveis neste exato momento para uso militar e secreto. É absurdo, mas aparentemente – é tudo muito secreto – há pelo menos dois satélites mais potentes que o Hubble orbitando o planeta neste exato momento, com tecnologias classificadas com as quais mal podemos sonhar.

Mas, ao invés de mirar o céu, miram a Terra. “Como macacos nos preocupa muito mais o que outros macacos andam fazendo”.

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