Todo Mundo em Pânico – Parte 2

25 dez 2007 | por em Dúvida Razoável às 23:01
 Todo Mundo em Pânico   Parte 2
Pentes Robóticos Sionistas Derretedores de Pênis“. Lembre-se desta frase. A história ocorreu em 2003 no Sudão, maior país da África, quando o pânico varreu a capital, Cartum. Rumores surgiram de que gringos satânicos estavam fazendo os pênis dos sudaneses desaparecerem com um simples aperto de mão. O membro encolhia até entrar dentro do corpo, e a morte seria apenas questão de tempo. E você que se preocupava com coisas como AIDS.

 Todo Mundo em Pânico   Parte 2Como Mark Stein conta, um dos casos foi noticiado no jornal árabe de Londres, Al-Quds Al-Arabi. “A vítima, um comerciante de tecidos, disse que um homem da África Ocidental veio à sua loja e apertou sua mão com muita força até que seu pênis se dissolvesse dentro de seu corpo. Ele ficou histérico e foi internado num hospital. O Procurador Geral Criminal, Yasser Ahmad Muhammad relatou ao jornal sudanês Al-Rai Al-A’am que o rumor surgiu quando o comerciante foi a uma outra loja para comprar Karkady (uma bebida sudanesa). Subitamente, o vendedor sentiu seu pênis sumindo“.

Stein continua: “O insubstituível Middle East Media Research Institute, em sua exaustiva cobertura, verificou que os pênis de Cartum eram vulneráveis não somente a apertos de mão. Outra vítima, que se recusou a se identificar, disse que quando estava no mercado, um homem se aproximou dele, deu-lhe um pente, e pediu que ele penteasse o cabelo. Segundos depois de fazê-lo, ele sentiu uma estranha sensação e percebeu que tinha perdido seu pênis“.

Longe do pânico, o jornalista sudanês vivendo na Arábia Saudita, Ja’far Abbas, ofereceu uma explicação ao caso. Como escreveu em sua coluna no diário Al-Watan, “sem dúvida, este pente é um robô cirúrgico guiado a laser que penetra o crânio e viaja até as partes baixas para emascular o homem! … Aquele estranho que, como dizem, era da África Ocidental, é um agente imperialista Sionista que foi enviado para prevenir que nosso povo procrie e se multiplique”.

Pouco depois, o americano James Taranto do Wall Street Journal cunharia o termo “pente robótico sionista derretedor de pênis“. Lembre-se desta frase.
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KORO
Os sudaneses não estão sós. Surtos recentes foram registrados em províncias chinesas em 1948, 1955, 1966, 1974 e 1984/85, mas a condição é mencionada tão cedo quanto em um texto chinês sobre medicina de 300 A.C.

Os chineses a chamam de “shook yang“, e vale citar um par de casos da epidemia de 1967 na Cingapura, descrita no British Medical Journal:

“O Hospital Geral estava atendendo a uma média de 70-80 casos [de "shook yang"] ao dia. … Um caso típico foi o de um estudante de 16 anos que adentrou o hospital com seus pais gritando para que o médico o atendesse rápido porque ele tinha “Shook Yong”. O garoto parecia assustado e pálido, e estava puxando com força seu pênis para evitar que o órgão desaparecesse em seu abdômen. … Uma jovem mãe entrou correndo no hospital segurando o pênis de seu bebê de 4 meses e pedindo que o médico o tratasse rapidamente”.

É comum que as vítimas tentem desde segurar seu pênis com as mãos, sem dormir, até o uso de instrumentos como elásticos, cordas, prendedores de roupa e alicates. Medidas drásticas, já que alguns preferem morrer antes de ver seu pênis sumir. E temem que irão morrer de toda forma se o dito cujo sumir.

Nada disto é fictício. A síndrome se tornou mais conhecida na literatura científica como “Koro“, termo do sudeste asiático, em uma referência à cabeça da tartaruga encolhendo para dentro do casco (O horror! O horror!). Há literalmente milhares de artigos publicados sobre o tema.

E como “Koro”, a síndrome também aflige a mulheres. Nelas, o terror ocorre com a diminuição dos seios e dos lábios (não os do rosto). Seguida, como no caso dos homens, de agonizante morte.

E você se preocupando com a AIDS. Mas talvez seja bom perguntar por que nunca ouvimos falar sobre algo tão terrível?

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MALLEUS MALEFICARUM
A resposta pode estar no fato de que no mundo ocidental, as últimas epidemias de sumiço de pênis ocorreram na Idade Média. O Malleus Maleficarum, ou Martelo das Bruxas do século XV, descreve por exemplo o caso de um homem que teve seu membro roubado por uma bruxa que o escondia em um ninho de passarinho junto com o de outros homens.

Ridículo, é bem verdade, mas foi o livro usado para matar milhares de pessoas inocentes em nome de crenças populares. Desde então, relatos isolados de sumiço e diminuição de pênis continuam ocorrendo, mas nenhuma epidemia foi registrada na Europa ou nas Américas desde o Iluminismo.

Mesmo na China, há mais de duas décadas não há registros de epidemias de Koro. Um dos últimos confins do mundo onde esta terrível praga continua a atacar as pessoas é mesmo a África, em países como o Sudão e a Nigéria. E nós não costumamos ouvir falar tanto das mihões de pessoas que morrem em tais países.

Se isso explica nosso desconhecimento sobre o sumiço de pênis, por outro lado levanta a questão de por que o Iluminismo acabou com a praga (Liberdade! Igualdade! Fraternidade! E pênis que não somem!).

Bem, se você leu a coluna anterior, já deve imaginar a resposta. Sim, é tudo “histeria”, uma ilusão coletiva. Ao contrário da AIDS, uma epidemia bem real, nenhum pênis ou seio some de fato. Não há qualquer registro médico confiável desses órgãos sumindo dentro do corpo, muito menos de morte súbita pelo desaparecimento de pênis (Lorena Bobbitt à parte), apesar dos inúmeros surtos e milhares de casos. Médicos receitam calmantes e usam a mídia para tranqüilizar a população. Geralmente funciona, e como toda histeria, com o tempo passa.

Assim como nos casos de histerias em escola abordados na coluna anterior, os sintomas descritos na síndrome de Koro são sempre parecidos, mas as causas relatadas variam muito. Desde bruxas até estrangeiros e seus apertos de mão satânicos, passando por magia negra e mesmo causas mais “racionais”.

No surto de 1967 na Singapura, o culpado era a carne de porco vacinado. Depois que um jornal local relatou um caso de sumiço de pênis supostamente devido ao consumo da carne de um porco vacinado, ninguém mais comeu carne suína por meses, e os hospitais foram inundados com relatos de pênis desaparecendo. Não de verdade, é claro. E então temos os “pentes robóticos sionistas derretedores de pênis“.

É fácil rir da credulidade e superstição de africanos e asiáticos afins. A idéia de pênis roubados por agentes malignos parece absurda. Mas somos as mesmas pessoas que ficamos nos perguntando se não haveria mesmo um Gaseador Louco” em Mattoon, se não haveria mesmo um espírito assombrando escolas nas Filipinas, se não haveria mesmo um alimento contaminado naquela high school de Virginia. Talvez fosse carne de porco vacinado?

Nossa cultura eliminou o sumiço de pênis, mas está muito longe de estar livre de epidemias de histeria. E falando em encolhimento de pênis, não podemos deixar de mencionar o país de meus ancestrais, o Japão.

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PIKACHU!
Há pouco mais de dez anos, em 16 de dezembro de 1997, o episódio do desenho animado Pokemón, “Dennou Senshi Porigon” (“Guerreiro computadorizado Polygon”) foi ao ar às seis e meia da noite no arquipélago japonês. Milhões assistiam ao desenho na TV.

Exatamente às 6:51, um trecho com muitas luzes piscantes foi ao ar. Menos de uma hora depois, autoridades japonesas já haviam registrado pelo menos 618 crianças hospitalizadas com sintomas diversos. Ao longo dos próximos dias, o número de vítimas subiria para mais de 12.000. Você deve se lembrar do episódio, que foi mesmo parodiado nos Simpsons.

 Todo Mundo em Pânico   Parte 2

Luzes piscando rapidamente podem provocar ataques de epilepsia, o que é um fato bem estabelecido. O episódio realmente tinha luzes nauseantes (confira por sua conta e risco o trecho banido). Há pouca dúvida de que das milhões de pessoas assistindo ao episódio, centenas deviam ter uma sensibilidade e sofreram convulsões epilépticas. Nada de histeria.

Ou um tanto.

Que mais de dez mil crianças também fossem vítimas de luzes piscantes é algo um tanto mais difícil de explicar. Elas não sofreram convulsões, apenas mal-estar. Não foram ao hospital imediatamente, e sim durante os dias depois do evento estampar as manchetes de todos os jornais, ser amplamente abordado na TV e discutido com colegas de escola. Os sintomas que descreveram, como dores de cabeça, tontura e vômito, não são indicativos de epilepsia fotossensível, e sim típicos de… histeria.

O guerreiro “Polygon” pode ter feito sucesso com as centenas de ataques epilépticos que provocou, mas seu verdadeiro feito largamente despercebido bem pode ter sido uma verdadeira histeria coletiva em milhares de crianças.
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 Todo Mundo em Pânico   Parte 2OS SUSPEITOS
Como disse Keyser Soze, o maior truque que o diabo já pregou foi convencer a todos que não existe. Esta série de colunas não oferece provas satânicas derretedoras de pênis, mas o que deve estar claro é que a histeria – incluindo a coletiva — é bem real e mesmo corriqueira, como vimos na primeira parte.

Aqui, espero ter mostrado que o “truque” da histeria coletiva é o de que nunca parece absurda em seu contexto cultural. Um aperto de mão castrador nos soa absurdo, logo não temos epidemias de sumiços de pênis. Aos sudaneses e nigerianos, a idéia não é ridícula. Mas talvez eles sim riam da idéia de que um desenho animado com personagens multicoloridos poderia vitimar mais de doze mil crianças.

Se você fosse vítima de uma histeria neste exato momento, dificilmente perceberia. Já mediu o tamanho do “Júnior” hoje? E às caras leitoras, o sutiã, continua caindo bem?

Don’t panic.

Na terceira parte exploraremos rapidamente as diferenças de gênero nas histerias, abordaremos algumas ilusões coletivas e nos arriscaremos a especular sobre como isso afetaria temas populares como a religião e a ufologia.

PS.: Espero que tenham aproveitado o Newtal!
PPS.: Pentes robóticos sionistas derretedores de pênis. Lembrou da frase?

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