Os vinhos e montanhas de Mendoza

12 mar 2013 | por em colunas, Mundo Hiperativo às 15:55
 Os vinhos e montanhas de Mendoza

Em sua obra-prima “Morte e Vida Severina”, João Cabral de Melo Neto descreve o nascimento de um garoto no sertão nordestino. Há pobreza e desamparo na cena, porém está claro que a vida se impõe mesmo nos piores contextos. Em uma das estrofes ele descreve o recém-nascido assim:

De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.

(…)

De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

Mendoza é bela como a vida que surge na aridez. Lá a Cordilheira dos Andes rareia as chuvas, é como uma enorme parede que barra a umidade do Oceano Pacífico. Por isso as plantas nativas não crescem mais que um metro de altura e as temperaturas variam do calor escaldante do verão a um frio agudo no inverno.

Para tornar a cidade habitável os argentinos tiveram que armazenar a água do degelo e distribuí-la usando canais. A água gelada e potável sacia a sede dos moradores, alimenta plantações e mantém vivos os álamos que sombreiam as ruas.

Imagine quanta estrutura é necessária para isso, mas nada que impedisse Mendoza de prosperar. Em meados do século XIX era uma cidade vibrante e capital de uma das províncias mais importantes da Argentina. No entanto, a relação de amor e ódio com a natureza não tardaria a reaparecer. Em 1861 um terremoto pulverizou a cidade, matando mais da metade da população. Nenhuma edificação ficou de pé.

Nada que abalasse o espírito dos mendocinos. Dessa vez a estrutura urbana foi planejada com mais cuidado. Sem prédios altos e com muitas praças, as quais são usadas para o lazer, mas também como ponto de fuga em caso de tremores.  Hoje é a porta de entrada para os aventureiros que desafiam a cadeia de montanhas mais extensa do mundo. É também a casa dos melhores vinhos argentinos. É um lugar de contrastes, onde ao mesmo tempo em que o calor castiga é possível observar o gelo no cume das montanhas.

E lá estava eu – aos pés da Cordilheira dos Andes – diante de todas essas possibilidades.

Na verdade, lá estávamos nós. Foi uma viagem em dupla, minha namorada e eu. Chegamos à Mendoza em um translado noturno que começara em Buenos Aires. Compramos passagens na primeira classe da empresa Andesmar (750 pesos cada) ainda no Brasil usando o ótimo site Plataforma 10. Mesmo pesando um pouco no orçamento, foi importante optar por uma noite de sono mais confortável, uma vez que no dia seguinte nossas atividades começariam logo cedo. Ficar cansado por causa de uma noite mal dormida pode estragar um dia inteiro de viagem. Valeu cada centavo, o ônibus da Andesmar é show. Tem televisão, poltrona 180 graus, jantar e até um bingo para entreter os passageiros.

Às oito da manhã já nos encontrávamos no bem localizado Savigliano Hostel, muito próximo à rodoviária (50 metros) e com um staff atencioso. Dividimos 585 pesos por três noites em quarto duplo com banheiro privado. Uma vez que chegamos bem antes do horário de check-in, nosso quarto ainda não estava disponível, mas nos deixaram tomar uma ducha antes de ir para o primeiro passeio.

O plano era conhecer algumas das muitas vinícolas que cercam Mendoza. Como já mencionado, a região abriga os maiores produtores da Argentina. Os passeios até esses lugares se resumem a degustar bons vinhos, comer bem e observar os belos cenários que mesclam parreiras verdes com a silhueta das montanhas ao fundo. Há diversas vinícolas que recebem visitantes e o que fizemos foi pesquisar na internet e escolher as que mais nos agradaram. Chegamos a dois nomes: Bodega y Cavas Weinert e Família Zuccardi.

Logo notamos que conhecer as vinícolas requer certo grau de planejamento. Primeiro não se esqueça de agendar sua visita com antecedência, pois algumas são bem disputadas. Basta encontrar os sites e mandar uns e-mails. Depois é o momento de pensar na locomoção. Em geral as sedes ficam longe do centro de Mendoza e o viajante provavelmente não poderá contar com o transporte público para chegar até elas. Existem agências que oferecem passeios em grupo. Nesses casos são para vinícolas já pré-escolhidas e sai bem mais barato, no entanto talvez não interesse ao viajante que deseja mais privacidade ou conhecer uma bodega fora da lista das empresas de turismo.

A solução então é contratar um remis ou alugar um carro. Preferimos um com motorista, afinal a idéia era beber vinho e não perder a prudência. Usando o Trip Advisor achei o muito bem recomendado Miguel Sanz, um chofer bom conhecedor da região, com carro novo e preço justo.

Às nove horas em ponto ele estacionou o carro em frente ao albergue e seguimos rumo à Weinert. Foram quase meia hora de percurso com as montanhas ao fundo. Essa vinícola nos chamou a atenção por ser uma das poucas em Mendoza a ter uma adega climatizada naturalmente. O que acontece é que geralmente os produtores mantêm a temperatura do vinho usando ar-condicionado.

 Os vinhos e montanhas de Mendoza

A vista durante o caminho para as vinícolas

No caso da Weinert eles têm uma cava bem próxima a um lençol d’água. Essa condição cria um efeito maneiro, pois enquanto lá em cima Mendoza ferve, a adega da Weinert fica oscilando entre 8 e 10 graus Celsius. Eles também são um dos poucos produtores a usar tonéis gigantes de madeira, com capacidade de até dois mil litros. O passeio é muito agradável, podemos ver como o vinho é produzido, conservado e engarrafado, tudo com a explicação de uma guia atenciosa. Custa 20 pesos para fazer o passeio, incluindo uma degustação com cinco vinhos. Eram dez da manhã e já estávamos altos, por isso vá preparado.

 Os vinhos e montanhas de Mendoza

Os gigantescos tonéis da Weinert

De lá seguimos para a Zuccardi. É uma bodega maior e mais comercial, mas o passeio fornece basicamente as mesmas informações. Essa é uma dica importante sobre esse tipo de visita: a coisa fica repetitiva porque o conteúdo é muito parecido. No fim a pessoa  só quer experimentar os vinhos da degustação e pronto, já está farta de explicações. Sendo assim, caso o viajante agende muitas vinícolas para o mesmo dia, deve se preparar para uma sucessão de palestras no estilo “não vale a pena ver de novo”.

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Uma tabela maneira para quem curte vinhos (clique para ampliar)

Para não ficar na mesmice optamos por algo diferente na Zuccardi. Lá – por 330 pesos – eles oferecem um piquenique sensacional nos jardins da vinícola. Existem ainda outras atividades, incluindo ciclismo, almoço gourmet, passeio de balão, colheita, entre outros. A comida é deliciosa e farta, regada a muito queijo, presunto, azeite de oliva e vinho tinto. Tem ainda uma sobremesa enorme e indescritível. As cestas de piquenique são vendidas para duas ou quatro pessoas,  é comida de sobra.

 Os vinhos e montanhas de Mendoza

O agradável jardim da Familia Zuccardi

Saímos de lá tortos e tivemos que dormir umas horas no albergue antes de continuar. Quando acordamos o sol ainda estava firme. Em Mendoza no verão o ocaso demora e é comum ouvir as pessoas marcando compromissos para as sete da tarde. Essa característica ambiental muda completamente a rotina das pessoas. O horário do almoço – por exemplo – é bem extenso, indo de meio dia até quase quatro da tarde. Em compensação as lojas só fecham lá pelas nove da noite.

Quando caminhamos a primeira vez pelo centro tinha muita gente nas ruas e praças. Seguimos até a Plaza Independencia, um espaço amplo e agradável. Tem feirinha de artesanato e vários restaurantes nas proximidades, além de bebedouros públicos com água gelada da montanha. Os mendocinos têm orgulho de peitar a aridez do deserto e mostram isso com a abundância de seus chafarizes sempre funcionando.

Andamos sob os álamos até o belo portão do Parque San Martin. Nesse ponto já anoitecia e resolvemos voltar para o centro e jantar. Na verdade só comemos um lanche rápido, pois o almoço tinha sido tão grande que mesmo naquela hora a fome ainda era pouca.

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A formosa entrada do Parque San Martin

Às oito da manhã do dia seguinte seguimos para o passeio de alta montanha. Basicamente uma van cheia de turistas que serpenteia a Cordilheira dos Andes em busca de belas paisagens. Reservamos pelo albergue na agência Huentata. Custou uns 200 pesos por pessoa e foi praticamente o dia inteiro de passeio.

Logo que deixamos Mendoza a primeira parada é para ver o dique que segura o degelo. A água do reservatório tem um tom de esmeralda muito intenso, mas as águas do rio Mendoza são marrons como achocolatado.

Depois há uma parada para o desjejum na pequena cidade de Uspallata, encrava bem próxima ao começo da cordilheira. Em mais alguns quilômetros – saindo da rodovia e pegando uma pequena estrada de terra – encontramos uma ponte de pedra em arco cortando um riacho de águas geladas.

Essa pequena estrutura marca um dos pontos nos quais o Exército Andino passou durante a famosa travessia Cruce de los Andes, um feito militar inimaginável. Em fevereiro de 1817 o General San Martin decidiu cruzar a Cordilheira dos Andes. Seu objetivo era chegar em Santiago e libertar os chilenos do jugo espanhol. Sendo assim, mais de cinco mil homens deixaram Mendoza para atravessar uma das maiores cadeias de montanhas do mundo levando 22 canhões e caminhando em média 28 quilômetros por dia. Foram quase trinta dias de viagem enfrentando temperaturas que variavam entre 30 e -10 Celsius. Nada mal para quem contava somente com a ajuda de mulas e cavalos.

De lá continuamos subindo e chegamos à notória Ponte do Inca, uma formação geológica das mais peculiares com sua cor amarela. Na verdade trata-se de uma ponte natural que – escavada pelas águas – atravessa o rio Caves. É um local considerado místico, pois dizem que suas águas termais ajudam na cura de doenças. A fama era tão grande que até o filho de um importante Imperador Inca veio banhar-se ali, fato que explica o nome. No início do século XX um hotel foi construído bem ao lado das termas, mas ruiu algum tempo depois por causa dos constantes terremotos.

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A Ponte do Inca

Chegamos então ao mirante do Aconcágua, a maior montanha das Américas e do Hemisfério Sul, com seus impressionante 6960 metros de altura. O topo é incrivelmente nevado, mesmo durante o verão. Dá ótimas fotos, uma beleza.

 Os vinhos e montanhas de Mendoza

A Sentinela de Pedra

Finalmente paramos para almoçar em Las Cuevas, um povoado com sete habitantes que fica quase na fronteira com o Chile. Nós já estávamos preparados para enfrentar um restaurante desses pega turistas com preço alto e comida ruim. Afinal de contas, com uma vila desse tamanho não tinha para onde correr. No entanto, eis que nos surpreendemos com o sensacional Nido de Condores. O preço (60 pesos) nem é tão acima da média se considerarmos a localização inóspita. É buffet livre e no dia em que comemos lá o cardápio incluía uma deliciosa carne de panela, frango assado e incríveis legumes grelhados na brasa.

Com a barriga cheia a volta à Mendoza foi sonolenta. Ainda paramos mais uma vez para ir ao banheiro, novamente em Uspallata, mas dessa vez em um charmoso restaurante na beira da rodovia. Ótimo local para comprar postais.

Após o passeio da alta montanha o dia ainda tinha algumas horas de luz, por isso resolvemos visitar o Mercado Central de Mendoza. É um lugar perfeito para comprar embutidos, queijos, doce de leite e diversos outros tipos de produtos, incluindo os surpreendentes alhos em conserva. Há também lanchonetes para uma refeição rápida.

De lá resolvemos – com a ajuda do mapa e ainda contando com o restinho da luz do dia – visitar as cinco praças do centro da cidade. Uma delas já nos era conhecida, a Plaza Independencia, mas ainda faltavam outras quatro. Começamos pela Plaza San Martin, mais uma homenagem ao militar que libertou a Argentina e outros países da América do Sul do império espanhol. Há uma pedra enorme com uma estátua equestre sobre ela, coisa fina.

Seguimos para a Plaza Chile, uma singela homenagem ao país vizinho que tanto ajudou Mendoza durante a tragédia do terremoto de 1861. Já a Plaza Itália rende seu apreço à enorme colônia italiana na Argentina, um povo que ajudou a moldar o que a cidade é hoje, começando pela produção de vinhos. Por fim chegamos à belíssima Plaza España com sua fonte e piso em azulejos multicoloridos. Em uma de suas extremidades há um mural colorido que conta a história da colonização de Mendoza pelos espanhóis no século XVI.

 Os vinhos e montanhas de Mendoza

O anoitecer na ajeitada Plaza Italia

Naquela altura a noite já chegara. Tomamos um sorvete e o cansaço bateu pesado, nem chegamos a jantar. Na manhã seguinte não nos preocupamos em acordar cedo. Tomamos café no albergue e seguimos para um passeio guiado ao Parque San Martin. Algumas pessoas nos deram a dica de alugarmos bicicletas e ir até lá por conta própria. Acontece que o sol estava escaldante e preferimos pegar um ônibus turístico que faz todo o parque. Foi uma decisão acertada, pois o lugar é enorme. Lá dentro há um zoológico, velódromo, teatro, estádio, lago e até um morro.

Quem organiza a excursão é a empresa El Oro Negro com seu ônibus sem teto. Custa apenas 34 pesos e tem em três horários partindo da Plaza Independencia: 12:00, 16:00 e 18:00 horas. O motorista dá informações interessantes sobre as atrações enquanto vagueia pelo parque.

É interessante notar que todas as árvores de Mendoza foram plantadas por seus moradores, uma vez que a vegetação é desértica. Elas só crescem e se mantém por causa do engenhoso sistema de canais construído na cidade. Toda a vegetação é “artificial”, o que torna o Parque San Martin ainda mais impressionante.

 Os vinhos e montanhas de Mendoza

Detalhe da vegetação “artificial” do Parque San Martin

A parte culminante do passeio é a ascensão até o Cerro de la Glória, um morro com 200 metros de altura e que proporciona uma boa vista da cidade. Como não poderia deixar de ser, lá em cima existe um memorial para homenagear o exército organizado por San Martin.

 Os vinhos e montanhas de Mendoza

Mais uma homenagem a San Martin e seus soldados

O ônibus nos deixou novamente na Plaza Independencia e seguimos para o norte em busca do antigo centro de Mendoza. Em torno desse local – onde hoje há um museu – a cidade cresceu até o grande terremoto de 1861. Atualmente é possível conhecer as ruínas da igreja e dos prédios públicos que foram varridos pelo sismo. Nas fotos nos grandes painéis se observa estupefato o grau de destruição. Dizem que durante o abalo grande parte das pessoas estava nas igrejas, pois era hora da missa. Das 8.700 que habitavam a cidade naquele dia, somente 3.000 sobreviveram. Quem vê hoje as praças lotadas não pode imaginar um cenário desses.

Voltamos ao hostel para descansar e ajeitar as malas. No jardim em frente à recepção um grupo de viajantes conversava sobre qualquer coisa. Quase no portão um coreano chamado Ling fumava um cigarro atrás do outro. O recepcionista veio me dizer que ele estava muito nervoso, pois no dia seguinte escalaria o Aconcágua.

Lhe desejamos boa sorte e fomos comprar alguns ingredientes num mercado próximo. Fizemos nosso jantar na companhia de outros incursionistas, uma conversa boa sobre nossas aventuras pelo mundo. Na manhã seguinte deixaríamos Mendoza para trás, mas não sem antes reconhecer os bons momentos que vivemos ali.

Abraço!

Pedro Schmaus

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