Viajante que é feliz demais

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Essa moça é a Thaís Buratto da Silva. Ela perdeu uma bela viagem para a Indonésia porque na fila de embarque seu pai comentou algo como “ainda bem que não descobriram que você é terrorista”. Uma gracinha que custou muito caro.

Falar o que não deve é um hábito humano. Ele aparece geralmente em dois momentos distintos: ou durante um acesso de ira ou quando se está empolgado demais. Creio que no caso do pai de Thaís tenha sido empolgação pura e simples.

Não me atrevo a dizer que alguém deveria perder um vôo por causa disso, afinal terrorista nenhum se diz terrorista antes de entrar no avião. O ponto que discuto aqui é o controle das emoções, em especial da empolgação que invade o viajante antes de sua tão esperada incursão ao desconhecido.

Para compreender esse fenômeno vejamos um contexto análogo. Há nos Estados Unidos uma cadeia de lojas para entretenimento familiar chamada de Chuck E Cheese. Lá dentro as pessoas comem pizza e seus filhos podem se divertir usando uma enorme variedade de brinquedos. O local é perfeito para organizar festas de aniversário de criança. Tinha tudo para ser um ambiente de paz e diversão, mas não é bem assim. Sempre rola uma briga entre famílias no Chuck E Cheese.

E isso acontece – pasmem – por causa de excesso de felicidade.

O cerne da questão está nas expectativas – ou melhor – no exagero. É natural que depois de tanta pesquisa e de aguardar tanto tempo para pegar a estrada o viajante se sinta pressionado a se divertir. Afinal, é a viagem dos sonhos e nada pode dar errado.

Porém, infelizmente algo certamente dará errado. Como você pensa passar 15 dias em um lugar novo sem correr o risco de algum contratempo? Pode acontecer que tudo ande bem, mas é raro demais. E quanto maior for a sua expectativa, menor precisará ser a frustração para que a ira apareça.

Notem que a raiva passa primeiro pela empolgação. Eu cansei de ver gente ficando na imigração do aeroporto por puro deslumbramento. Nessa ânsia de compartilhar a felicidade, sai uma piadinha aqui, outra ali, especialmente em viagens de grupo. Já o cara que está trabalhando – carimbando passaportes – provavelmente não se sente satisfeito. Sentado num cubículo e imerso em procedimentos chatos, ele não gosta de ver gente conversando fiado e desatenta aos procedimentos. Isso demonstra displicência e causa irritação. O resultado? O turista volta para casa, tudo porque não soube se comportar em relação à sua empolgação.

Esse exemplo pode ser aplicado a outros aspectos da viagem e também da vida. É preciso ser calmo, não se deixar levar por expectativas. O melhor é aguardar o mundo real se apresentar e estar preparado para o que vier. Em suma, não construa seu destino turístico com base em imagens ou no relato dos outros. Use isso como uma maneira de se orientar, porém aguarde para ver como é de verdade. Viaje sem amarras e viva o que lhe for oferecido.

De alguma maneira viajar se parece com o Natal. Há muita espera, desejos, expectativas. Então você acha que aquilo tem que ser obrigatoriamente legal, mas no fim não fica legal justamente porque há essa obrigação de ser o máximo. Na verdade, nada pode ser legal o tempo todo, nem sua viagem, nem seu emprego, nada. E no fim isso é positivo, uma vez que aprendemos bastante com os desapontamentos.

Por isso não se empolgue demais, aguarde a viagem se transformar no que ela será para sempre na sua memória: uma lembrança que mesclará momentos felizes e lições (às vezes muito amargas) a serem levadas para o resto da sua existência.

Abraço!

Pedro Schmaus

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