O Comedor de Lixo: O primeiro livro interativo da Blogosfera brasileira – Capítulo 6 – Por que me quer bem?

30 out 2008 | por em HQ às 3:49
O Comedor de Lixo  O Comedor de Lixo: O primeiro livro interativo da Blogosfera brasileira   Capítulo 6   Por que me quer bem?  

“…Não entendia o que era hierarquia, mas ele respeitava Bino que, diferente de Júlio, se vestia muito bem e nunca reclamava de dificuldades. Ele sabia como ganhar dinheiro facilmente. Sua relação com seus clientes não exigia humilhações, portas trancadas e vidros fechados, eram negociações, e com o rendimento dessas negociações comprava coisas melhores que ele, Júlio, o jornaleiro e todos os outros trabalhadores do seu semáforo…”

“…deixou o plástico em cima da mesa e rapidamente dirigiu-se a porta, liberando a entrada para seu marido que perguntou se a encomenda havia chegado. Repousaram-na em cima da pasta de couro do homem que, com folha de um prontuário, dividiu o pó branco em diversas fileiras simétricas, consumidas instantaneamente….”

“…mas não era a vergonha comum de não ser percebido pelos outros, de ter que pedir para comer, de causar medo nos pedestres que atravessavam a rua quando o viam. Não era a vergonha de dormir no chão, de andar sozinho, de ter que pedir para o borracheiro lavá-lo com a mangueira ou de passar entre os carros com a mão estendida. A vergonha não era por ele, era por Júlio, que havia dado-lhe três bolas e o ensinado a jogá-las, junto com seus filhos…”

“…comida podre, seringas descartáveis e pessoas amontoadas umas sobre as outras. Pensou em sair daquele lugar horrível, mas o convite de um grupo o fez ficar: sentiu-se visível. Convidaram-no para sentar-se junto a eles e, em retribuição, ofereceu parte do seu lanche. Chegou a se achar importante…”

COMO PARTICIPAR DO PROJETO ”O COMEDOR DE LIXO”?

CAPÍTULO 1 – QUAL O PREÇO DA LIBERDADE?

CAPÍTULO 2 – O CRIME COMPENSA?

CAPÍTULO 3 – QUAL CAMINHO TRAÇAR?

CAPÍTULO 4 – O QUE SOU EU?

CAPÍTULO 5 – EM QUAL MENTIRA VOU ACREDITAR?

LEIA O CAPÍTULO 6 E DÊ SUA SUGESTÃO PARA SEQUÊNCIA DA ESTÓRIA!

O Comedor de Lixo  O Comedor de Lixo: O primeiro livro interativo da Blogosfera brasileira   Capítulo 6   Por que me quer bem?

NOTA DO AUTOR:

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Muito obrigado a todos que continuam mandando sugestões para a estória ficar cada vez mais interessantes. E também a todos aqueles que enviam correções – AlineB -, tanto de sintaxe quando gramaticais. Essa revisão é muito importante!  Agradecimentos ao Marcos Leandro [etcsa.blogspot.com], o ilustrador do nosso livro.

A experiência do “cadáver esquisito” foi muito boa!!! Apenas algumas pequenas modificações, mas os textos de vocês estão quase na íntegra no corpo da estória. Confiram suas participações e dêem sugestões para  seguimento de “O Comedor de Lixo”.  Valeu! A saga de Rato chegará, em breve, ao fim!

CAPÍTULO 6:

O COMEDOR DE LIXO – CAPÍTULO 6 – POR QUE ME QUER BEM?

Tocou a campainha…

…ninguém atendeu. Rato esperou mais um tempo e tocou novamente. Era um som prolongado e suave. Nenhuma resposta. Impaciente, apertou o botão mais uma vez e logo se virou, caminhando a procurando de Bino. Ao dar o segundo passo escutou o ranger da porta. Olhou para trás e viu algo que o hipnotizou: a mulher mais bela de todas, vestida apenas com uma camiseta. Rato ficou imóvel.

- Foi o Bino que te mandou aqui moleque? [1]

Rato, com olhos arregalados e respiração ofegante, respondeu positivamente com a cabeça.

Desconfiada, ergueu o braço e rapidamente trouxe o embrulho para dentro de casa, com a outra mão, enquanto fechava a porta, entregou o dinheiro ao garoto assustado. Rato caminhou rapidamente para a esquina para dar o dinheiro a Bino e receber sua parte da negociação. Não sabia quanto dinheiro foi entregue pela bela moça, mas, para ele, dez reais era um bom lucro de quase 5 horas de trabalho no semáforo, passando lentamente com a palma da mão estendida entre os carros. Imaginou como uma mulher tão bonita, com tanto dinheiro e uma casa tão luxuosa compraria drogas. Pensou que esse seria o motivo de o comércio ser tão promissor e comentou com Bino:

- Dá dinheiro, né? Gente rica, né?

Bino puxou o franzino garoto com força, que, desequilibrado, foi levado a um beco próximo a esquina. Conferiu o dinheiro e entregou-lhe o que era devido:

-Toma teus dez conto! [2]

Não era comum obter dez reais em uma só investida. Rato, apesar de sentir-se febril e ainda dolorido, experimentou uma sensação de conforto e dever cumprido. Deu alguns passos em direção ao semáforo. Olhando para a nota cor de rosa e deslumbrando-se com o pássaro de grande bico, quase sorriu, até seu raciocínio foi interrompido por uma pergunta, em tom de ordem:

-Qué mais dez conto amanhã, Rato? [3]

Olhou mais uma vez pra nota e respondeu que sim, gesiculando com a mão que segurava os dez reais. Não poderia perder a oportunidade, afinal Bino era seu intermédio mais próximo com a prisão. O comércio ilegal daquele pacote talvez fosse a única possibilidade concreta de conseguir alguma confusão com a polícia.

Quando percebeu, seu parceiro já havia ido embora. Não entendia o que era hierarquia, mas ele respeitava Bino que, diferente de Júlio, se vestia muito bem e nunca reclamava de dificuldades. Ele sabia como ganhar dinheiro facilmente. Sua relação com seus clientes não exigia humilhações, portas trancadas e vidros fechados, eram negociações, e com o rendimento dessas negociações comprava coisas melhores que ele, Júlio, o jornaleiro e todos os outros trabalhadores do seu semáforo. Disse, encantado com a nota:

- É dinheiro! [4]

Enquanto Rato caminhava para o semáforo, na luxuosa casa a bela mulher abria o pacote devorando o conteúdo com os olhos. A campainha tocou. Deixou o plástico em cima da mesa e rapidamente dirigiu-se a porta, liberando a entrada para seu marido que perguntou se a encomenda havia chegado. Repousaram-na em cima de pasta de couro do homem que, com a folha de um prontuário, dividiu o pó branco em diversas fileiras simétricas, consumidas instantaneamente. Depois de todo o ritual, o médico, repousando suas pernas sobre a mesa e sentado no sofá, comentou sobre um fato ocorrido na igreja e que conheceu um pequeno garoto, baixo, magro, negro e de cabelos escuros, que precisava, urgentemente, ser medicado, ou a bactéria infecto-contagiosa da leptospirose poderia destruir o sistema imunológico já frágil do menino.  [5]

- E como você vai reconhecer ele? Na rua o que mais tem é menino preto e perdido.

No caminho para seu estratégico ponto de trabalho, observou as vitrines de diversas lojas. Merecia gastar aquele dinheiro tão facilmente conseguido e imaginou nas muitas coisas que poderia comprar se continuasse a estreitar usas relações com Bino. Enquanto caminhava distraidamente, segurando o dinheiro recebido pelos seus serviços, esbarrou em Júlio, que lhe perguntou:

-Rato, onde arrumou esse dinheiro? Saiu lá de casa cedo, não avisou a ninguém. Não foi fazer besteira, né? [6]

Grunhiu ao ver a expressão de desconfiança do malabarista que tanto o tinha ajudado no dia anterior, alguma coisa se apoderou dele, não entendia a sensação, uma espécie de ódio de si mesmo, o que alguns chamam de vergonha. Mas não era a vergonha comum de não ser percebido pelos outros, de ter que pedir para comer, de causar medo nos pedestres que atravessavam a rua quando o viam. Não era a vergonha de dormir no chão, de andar sozinho, de ter que pedir para o borracheiro lavá-lo com a mangueira ou de passar entre os carros com a mão estendida. A vergonha não era por ele, era por Júlio, que havia dado-lhe três bolas e o ensinado a jogá-las, junto com seus filhos. Correu sem rumo, para não ter que dar uma resposta. E chorou.

Aquele sentimento atiçou sua memória, lembrou-se de um acontecimento da sua infância, um objeto brilhante que pegou de sua mãe, não por maldade nem ganância, mas só por que tinha um brilho dourado. Quando perguntado sobre o objeto, mentiu. Mas, quando sua mãe o colocou para dormir, aquilo escorregou de suas mãos e ela viu. A repulsa de si mesmo brotou pela primeira vez. [7]

No semáforo, o jornaleiro, mais uma vez, contava em voz alta, empunhando um dos volumes:

- Disseram que os presos daqui da cidade estão loucos pra fazer uma rebelião! Tão dizendo que a comida ta azeda e que a cadeira ta com mais preso do que deveria. E o pior, né? A polícia tá em greve! Quero ver quem vai impedir daquilo lá explodir qualquer hora!  E, do jeito que o povo ta sem emprego aqui fora, a quantidade de preso lá dentro só vai aumentar mesmo…  Saiu no jornal que essa semana acharam um preso lá dentro que já deveria tá solto há bem 4 anos…

Enquanto os trabalhadores do semáforo escutavam as notícias, Padre Lino e a freira procuravam por Rato para encaminhá-lo ao hospital da região. Sabiam que grande parte dos indigentes que se beneficiavam da distribuição de sopa da paróquia circulavam durante o dia pelas proximidades daquele ponto. Mas ele, que observava tudo longe, não queria ser descoberto, sentia repulsa só de olhar para o padre. [8] 

Resolveu aguardar em um beco que costumava abrigar moradores de rua mais velhos e alguns viciados.  O mesmo beco no qual Bino foi detido pela polícia enquanto repassava algumas de suas mercadorias. O local era uma extensa viela, com paredes de tijolo aparente e diversas latas de lixo, aonde, aos montes, os usuários de drogas serviam-se. As caixas de ar condicionado dos prédios ecoavam um som sombrio naquele corredor em que se reuniam os excluídos, consumindo o que lhes sobravam. A penumbra, formada por alguns toldos velhos, escondia os rostos em vultos, não permitindo diferenciar velhos, jovens, mendigos ou viciados. Rato, então, pensou que ali poderia ser um refúgio, até que pudesse retornar ao seu semáforo e continuar com seu trabalho. Antes de entrar no beco, sem saída, pediu para um rapaz que entrava na lanchonete comprar-lhe um refrigerante e um sanduíche. Fez questão de pagar pela refeição.   [9]

Seu corpo estava dormente e a cabeça muito pesada, precisava descansar. Caminhou entre as paredes do grande corredor e encontrou um lugar ainda pior do que o que estava acostumado a dormir: comida podre, seringas descartáveis e pessoas amontoadas umas sobre as outras. Pensou em sair daquele lugar horrível, mas o convite de um grupo o fez ficar: sentiu-se visível.

Convidaram-no para sentar-se junto a eles e, em retribuição, ofereceu parte do seu lanche. Chegou a se achar importante. Mesmo que para aquele grupo de excluídos e moribundos não era invisível, haviam percebido sua existência, sem mesmo precisar fazer algo de errado.

Enquanto repousava seu corpo febril, imaginou que poderia ganhar muito dinheiro trazendo drogas para aquele pessoal. Apesar da sujeira, alguns ali aparentavam ser de família rica, assim como a casa em que entregou o pacote em nome de Bino. Se conseguisse a droga sem o intermédio de Bino, faturaria uma quantia maior. Mas como conseguir isso? De onde começar? Quem procurar? [10]

Ele sabia que, dessa vez, teria que pensar. Precisava de um plano para ludibriar Bino e descobrir como entraria para o negócio sem dividir seus lucros. Estava cansado de ser passado para trás. Essa era a chance que esperava, o dinheiro fácil e a oportunidade de, finalmente, conseguir por em prática seu principal: ser preso.

Enquanto divagava sobre o que poderia fazer com seus lucros, não percebeu a volta de seu mal-estar. Pensou em ter uma bola de verdade e um grande campo gramado. Vomitou. Pensou em entrar no shopping e se deliciar com aquela variedade imensa de comida nas lixeiras. Pensou em ser recebido por inúmeras mulheres estonteantes de camiseta. Vomitou de novo, sangue dessa vez. [11]

COLABORAÇÕES DESTE CAPÍTULO:

Imagem por Marcos Leandro – www.etcsa.blogspot.com 

*Título por Carlos Henrique (RIK)

1. Tiago Bispo http://tiagobispo.com
2. Prolixo Lacônico – http://www.prolixo.com
3. Tiago Bispo http://tiagobispo.com
4. Egito
5. willi
6. Pedro Bini
7. Thomas
8. Israel
9. Marco Leandro – http://etcsa.blogspot.com
10. Marco Leandro – http://etcsa.blogspot.com
11. AlineB 

PROPOSTAS DE INTERAÇÃO PARA O PRÓXIMO CAPÍTULO:

1. Você acha que Padre Lino e o Médico devem encontrar Rato para tratarem de sua doença?

2. Rato deve ou não experimentar o uso de algum entorpecente?

3. Agora é a hora de decidir. Rato acompanhará Bino ou Júlio? Ele conseguirá ludibriar Bino ou aceitará a ajuda de Júlio?

4. Sintam-se a vontade para escrever a sequência da estória, assim como ocorreu no capítulo anterior com a experiência do “cadáver-esquisito”.

5. Vocês acreditam que, nas eleições para prefeito de suas cidades, esse ano houve alguma mudança de consciência da população? Os candidatos escolhidos parecem estar dispostos a mudar as condições dos Ratos de nossas cidades? Ou trabalharão apenas em benefício próprio e de seus partidos?

Como já disse. A saga do nosso herói está chegando aos seus últimos capítulos. Agora a participação de vocês é mais importante do que nunca para o desfecho do enredo! Contamos com vocês e até a próxima quinta-feira! Abraços.

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