O Comedor de Lixo: O primeiro livro interativo da Blogosfera brasileira – Capítulo 4 – O que sou eu? 2 out 2008 | por Junior em HQ às 0:58
“…olhou para suas mãos esqueléticas, com dedos finos, pretos e longos. “Parece mão de macaco”, pensou. Queria culpar alguém pela sua desgraça, mas como pensava pouco, culpou a si. De quem teria herdado esse corpo feio, essas mãos de macaco e essa aparência imunda?”
“…percebeu que quase todas suas lembranças eram de sua vida na rua: sua sobrevivência diária, sua atividade mecânica de passar entre os carros com a palma da mão estendida, seus encontros descartáveis e sua peregrinação de bicho em busca do que comer…”
“…era quase um milagre estar há quase dez anos nessa atividade, os exemplos que via provavam que o mercado de trabalho das ruas não era tão benevolente. Estava ficando velho demais para depender da boa vontade dos outros…”
“…acreditava com veemência que a prisão era sua única solução. Seria uma benção ter refeições certas diariamente…”
Sempre sonhou em ser escritor? Faça parte do primeiro livro interativo da blogosfera brasileira! Conheça a saga do menino de rua Rato e escolha o seu futuro para o quinto capítulo de “O Comedor de Lixo”.
“O Comedor de lixo”, novo projeto do Sedentário & Hiperativo: uma análise sobre a falta de oportunidades no país que joga seu futuro na sarjeta.
COMO PARTICIPAR DO PROJETO ”O COMEDOR DE LIXO”?
CAPÍTULO 1 – QUAL O PREÇO DA LIBERDADE?
CAPÍTULO 2 – O CRIME COMPENSA?
CAPÍTULO 3 – QUAL CAMINHO TRAÇAR?
NOTA DO AUTOR:
Quer ajudar nosso projeto? Além de interagir com nossa estória você pode fazer como blogdopato e o flycarrot que essa semana postaram sobre “O Comedor de Lixo”. Faça o mesmo e ganhe seu link aqui!
Agradecemos, como sempre, a participação de todos no post anterior, que ajudaram a traçar o perfil psicológico do nosso herói. Nesse cápítulo exploraremos o interior do personagem. Espero que o projeto esteja fazendo todos nós – como disse Luiz Trevisan – enxergar o problema social que estamos tratando durante a trajetória do Rato.
Um muito obrigado a Luiz Trevisan pela correção gramatical do Cirque du Soleil. Obrigado ao Eduardo e o Tiago Bispo que atentaram ao erro no “abriu e fechou” do sinal. Também ao Alexandre Andrade sobre a correção do patro por prato. Além de Esperanto que chamou a atenção ao “começa” quando deveria estar escrito “começo”. Tudo já foi corrigido.
A experiência vivenciada por Bruno, contada nos comentários do post anterior quando falou do menino de rua que fez questão de pagar seu próprio lanche no drive-thru, mostra que a sabedoria não é apenas uma qualidade inerente à quem teve oportunidades na vida. Nosso Rato, assim como o garoto do fast food, também pode ser muito sábio, mesmo que condicionado ao determinismo da sua existência e sua linguagem pobre.
Segue, portanto, o Capítulo 4 de “O Comedor de Lixo”. Confira se sua idéia foi utilizada e dê sua sugestão para o futuro do personagem na próximo capítulo. Esperamos sua participação!
CAPÍTULO 4:
O COMEDOR DE LIXO – CAPÍTULO 4 – O QUE SOU EU? [1]
[*]
Acordou no meio da noite com falta de ar. Não sabia que horas eram. Chovia muito, as ruas estavam vazias e o céu sem nenhuma estrela. Pensou que talvez estivesse resfriado, ou com muita fome, não sabia diferenciar[2]. Lá estava ele, mais uma vez, sentado sozinho naquele papelão úmido, tentando se proteger da tempestade. Em uma das muitas poças que se formaram próximo[3], conseguiu enxergar seu reflexo: era feio, pequeno e sujo. Na água enlameada, sua imagem foi refletida e, em meio ao silêncio e o deserto da madrugada, como em uma revelação, percebeu que existia de fato. Não era invisível, apenas não o enxergavam. Olhou para suas mãos esqueléticas, com dedos finos, pretos e longos. “Parece mão de macaco”, pensou [4]. Queria culpar alguém pela sua desgraça, mas como pensava pouco, culpou a si. De quem teria herdado esse corpo feio, essas mãos de macaco e essa aparência imunda?
Tentou reconstruir a imagem de sua mãe, que havia visto pela última vez aos quatro anos de idade, antes de ser encaminhado pelo conselho tutelar ao orfanato[5]. Lembrou de um pano branco que ela usava sobre os cabelos, mas não conseguiu ver seu rosto[6]. Lembrou do dia em que a polícia havia levado sua mãe, muito barulho e gritos. Haviam arrombado a porta da sua casa, bagunçado e destruído o armário. Lembrou que jogaram sua mãe dentro de um carro e da voz doce de uma mulher que o pegou pela mão e explicou que não mais poderia morar com sua mãe e que agora ele ficaria com outros garotos, até encontrar outra mãe e um pai, que nunca apareceram. Lembrou-se de quando saiu do orfanato, andando lentamente pela porta da frente, no dia de visitas, em que todos os outros meninos vestiam suas melhores roupas, tomavam banho, escovavam os dentes e eram visitados pelos futuros pais e mães. Ele não, ele tinha mão de macaco. Ele era preto, sujo e feio. Ninguém o visitava, e até o esqueciam nesses dias, quando resolveu ganhar o mundo e sair do orfanato, com a esperança de encontrar seu universo além daqueles muros.
Fez força para lembrar como sua mãe o chamava, mas não conseguiu[7] seu único nome era mesmo Rato. Uma das poucas lembranças claras que tinha do orfanato era o teto sobre seu beliche[8]. Algumas tábuas de madeira posicionadas verticalmente, alinhadas de forma perfeita, que com o passar dos dois anos que permaneceu no orfanato, devido a uma infiltração, apodreciam aos poucos e pingavam lentamente nos dias de chuva sobre seu colchão. Por diversas vezes tentou informar aos administradores do lar para órfãos sobre o problema, mas suas reclamações eram insignificantes. Ninguém o escutava nem fazia esforço para entender seu dialeto incompreensível. Também não conseguia fazer amizade com os outros meninos do orfanato, o que contribuiu a não exercitar sua capacidade de relacionamento, nem aprimorar seu vocabulário pobre. Comunicava-se, desde que foi afastado de sua mãe, principalmente por gestos e barulhos guturais. Naquela noite chuvosa, sentiu saudade do teto podre.
Percebeu que quase todas suas lembranças eram de sua vida na rua: sua sobrevivência diária, sua atividade mecânica de passar entre os carros com a palma da mão estendida, seus encontros descartáveis e sua peregrinação de bicho em busca do que comer. Lembrou de Júlio, de Bino, dos garotos que costumava jogar bola na praça, do jornaleiro, lembrou do senhor do carro preto que havia lhe dado algumas roupas e do segurança do shopping que, delicadamente, o enxotou do estabelecimento. Mas e ele – se perguntou – quem seria ele? Será que um dia encontraria seus pais? Não se lembrava nem do rosto de sua mãe, parecia impossível reencontrá-la[9].
Mais uma vez teria que se virar por conta própria. Não conseguia vislumbrar um futuro, mesmo com sua determinação animal, não tinha real esperança de que pudesse sobreviver mais muitos anos peregrinando nas ruas da cidade. Era quase um milagre estar há quase dez anos nessa atividade, os exemplos que via provavam que o mercado de trabalho das ruas não era tão benevolente. Estava ficando velho demais para depender da boa vontade dos outros e não possuía nenhuma habilidade que o fizesse prover seu sustento sozinho. Passou a mão no bigode ralo que brotava da pele suja. Acreditava com veemência que a prisão era sua única solução. Seria uma benção ter refeições certas diariamente, um lugar seco para dormir e ser parte do grupo de presos, enfim existir.
Rato sentia-se fraco, a tempestade o havia deixado realmente doente, talvez até tenha delirado, em virtude da febre, durante a noite. Aquela não havia sido uma noite qualquer[10]. Era sexta-feira, o dia em que a panificação da avenida substituía os salgados feitos na terça e preparavam uma nova remessa para o final de semana. Aquela sexta era o dia mais esperado por ele e por dezenas de outros indigentes, que, organizadamente, faziam fila à frente da padaria para receber sua parte do estoque que iria ao lixo. Levavam sacos plásticos e jornais para embrulhar cada saborosa iguaria que lhes eram entregues pelos empregados do estabelecimento, sem muito cuidado ou higiene. A refeição para ele era um banquete imperdível e uma oportunidade de economia, já que, pelas 12 horas seguintes não precisaria se alimentar.
Chegou ao semáforo, com frio e com o corpo dolorido. O jornaleiro já estava sentado sob o monte de jornais lendo as notícias do dia. Sentia-se importante, como se fosse o primeiro a saborear as novidades da cidade, do estado, do país e do mundo. Imaginava o trabalho de um jornalista como um super-poder, de transformar mistério em notícia, desvendar segredos e esclarece-los a população ignorante. Não sabia que o dono da editora (que já possuía uma gráfica com o mesmo nome) era o presidente do partido com o maior poderio político da região, ex-senador e eminente empresário da agropecuária brasileira. Mas não importava, as sagradas notícias eram fatos inquestionáveis, apesar de sempre fazer, em seus moldes, uma análise crítica delas [11]:
-Rato, soube que a polícia ainda não voltou da greve? Ta faltando assim para o presidente mandar o exército vir aqui resolver o problema [12]. Eles fizeram protesto de novo na frente da prefeitura, e o prefeito lá encurralado, e o maior quebra-quebra. Agora lá na comunidade tá a maior desmoralização, assaltaram meu filho chegando da escola e tomaram a bicicleta do menino. Eu tenho culpa de a prefeitura não aumentar o salário dos homi? O prefeito ta lá, cheio de segurança, e meu filho não pode mais andar de noite na rua da casa. Isso sem contar que mataram outro na esquina da minha casa. A polícia parada, os bandido na rua e nós, homem de bem, preso dentro de casa. Tem aqui uma parte, com um depoimento do presidente dizendo que o “Risco-Brasil”, numa tal de cotação externa, caiu. Esse tal “Risco-Brasil” pode ter caído, mas o risco de viver no Brasil, ta cada vez maior.
Ele concordou com a cabeça, esperando chegar o tal do exército que, se prendia até polícia, prenderia ele instantaneamente.
Espirrou mais uma vez e sentiu seu corpo pesado e fraco. Como o movimento financeiro do semáforo, nas sextas-feiras, era menos lucrativo, decidiu retirar o dia de folga [13] e reavaliar seu plano de ir à cadeia. Caminhou lentamente procurando algum lugar em que pudesse repousar. Encontrou, na calçada de um prédio, uma grande lixeira vazia e posicionou-se embaixo de sua tampa de ferro [14]. Quieto, tremendo e ardendo de febre, enquanto o vento soprava algumas gotas de chuva, aguardava ansiosamente a hora em que a lanchonete substituiria os salgado, talvez uma boa refeição curasse seu mal estar.
Esboçou um raciocínio sobre sua estratégia, a atitude na noite anterior, durante a distribuição da sopa, e a tentativa de quebrar os vidros da construção. Concluiu que não adiantaria agir impulsivamente com hostilidade, isso não o levaria à cadeia[15], principalmente porque a polícia não estava preocupada com suas atitudes insignificantes, precisava de um plano mais engenhoso e elaborado. Mas, para isso, seria necessária a ajuda de alguém. Mas a quem poderia recorrer?
Bino, caso já estivesse nas ruas novamente, seria uma ótima alternativa, conhecia a prisão por experiência e sua atividade com o narcotráfico da região seria certamente o caminho mais curto entre Rato e a prisão. Mas Júlio, que sempre se ofereceu em ensinar a arte dos malabares, parecia ser muito inteligente e possivelmente o ajudaria a pôr seu plano em prática. Além de que, já que tinha dois filhos, sempre tratava todos os pequenos garotos do semáforo com muito carinho e cordialidade. Se questionou diversas vezes sobre a quem deveria contar seu plano genial e qual dos dois seria mais confiável.
Decidiu que era hora de levantar e seguir à lanchonete para ser um dos primeiros a receber o resto dos salgado. Levantou-se rápido e sua visão ficou turva e escureceu gradativamente até suas pernas adormecerem levando-o ao chão. Com a queda, sua cabeça bateu na calçada molhada e, antes de desmaiar, ouviu apenas uma voz feminina:
- Coitado! [16]
COLABORAÇÕES DESTE CAPÍTULO:
* Imagem por Marcos Leandro – www.etcsa.blogspot.com
1. Luiz Trevisan, Tiago Bispo http://tiagobispo.com , Alexandre Andrade http://blogdopato.brogui.com
2. Esperanto e Bruno – http://quepagaquanto.blogspot.com
3. made in china
4. Esperanto
5. Alexandre Andrade
6. Marcos Leandro – http://etcsa.blogspot.com
7. Marcos Leandro – http://etcsa.blogspot.com
8. Bruno Cobbi – http://aprendizdeescritor.com.br e Alexandre Andrade
9. Luiz Trevisan
10. Luiz Trevisan
11. Esperanto e madeinchina
12. Tony http://flycarrot.wordpress.com.br, Tiago Bispo – www.tiagobispo.com e Marcos Leandro http://etcsa.blogspot.com
13. Bruno – http://quepagaquanto.blogspot.com e Anarcoplayba http://anarcoblog.wordpress.com
14. Bruno – http://quepagaquanto.blogspot.com
15. Alexandre Andrade – http://blogdopato.brogui.com e Lucas Balduino
16. Bruno – http://quepagaquanto.blogspot.com
PROPOSTAS DE INTERAÇÃO PARA O PRÓXIMO CAPÍTULO:
1 - Quem deve ser a mulher que encontrou Rato desmaiado na calçada?
2 - Quem será o tutor de Rato? Há uma metáfora, como nos foi proposto, sobre o caminho que o personagem deve seguir: o bem ou o mal. Bino (minitraficante) ou Júlio (malabarista)?
3 - Qual a doença de Rato? Como ele pegou a enfermidade? O que vai acontecer com sua saúde? Você quem escolhe!
4 – Eu, pelo menos, já estou prestando mais atenção nos meninos de rua que passam o dia nos semáforos da minha cidade. Você tem percebido eles com mais atenção também? Conte sua experiência.
Até a próxima quinta! Espero que estejam gostando da trajetória de nosso herói. Contamos com sua colaboração para o 5º capítulo. Domingo, quando votarem, pensem se seu candidato também enxergaria o Rato no semáforo! Um grande abraço!












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